RECANTO DA PROSA

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  • Aline Caixeta Rodrigues

Ainda vale a pena celebrar

Para a Ana Carolina. Porque de todas as pessoas que conheço, nunca vi alguém gostar tanto de comemorar seus aniversários.



Fernando Pessoa dizia que todas as cartas de amor são ridículas – e, sim, estou ciente da banalidade de se começar uma carta citando Pessoa. E digo carta por romantismo e porque gosto do termo, mesmo sem escrevê-la à mão e postar com selo no correio. Mas para trazer qualquer contribuição minimamente pessoal, inteiro que as cartas que escrevemos para os amigos também são ridículas. Todas acabam soando meio dramáticas, excessivas, sem nada de muito original; e às vezes cheias de promessas que não serão cumpridas, ainda que as intenções sejam puras. É que os amigos vêm e vão o tempo todo e mesmo os que parecem eternos, às vezes nos deixam. Ou apenas se transformam e seguem caminhos diferentes. E a gente diz que é assim mesmo, está tudo bem, essa é a vida; e arranjamos amigos novos, com uma saudade triste pelos que se afastaram. E recomeçamos, talvez até com um pouco de descrença nos que chegam, vamos com calma, sem criar muitas expectativas.


Ao menos sou dessas e sempre fui. Talvez eu mude, talvez não. Mas somos diferentes em nossas semelhanças, pelo que é preciso dar graças; nem todo mundo fica tateando com os pés antes de dar um passo à frente. Há pessoas que não dão passos, dão saltos, se jogam – não sem medo, não acredito em pessoas destemidas, mas com uma coragem que chama o medo, faz as pazes com ele e diz olha aqui, você vai ter que confiar em mim, porque a gente vai fazer isso e depois você vai ver como foi bom. Essas são as melhores pessoas. As que respiram fundo e simplesmente vão. Fazem seus planos, realizam seus planos, erram, caem, levantam, voltam, refazem os planos, se entregam aos amores, às paixões, aos sonhos, a todos os clichês e, é claro, às amizades.


Pessoas assim não têm medo do ridículo. Não têm medo de fazer promessas, não sofrem por uma nostalgia antecipada dos amigos que não se foram, mas podem ir. Pessoas assim confiam nos que chegam, se entregam mesmo sabendo que poderão se frustrar, e enquanto criam laços, acreditam no eterno. Acreditam no intenso, puxam pra cima e bebem juntas, tanto pra rir quanto pra chorar. Pessoas assim, parafraseando um outro poeta, podem não ser eternas no tempo, mas são eternas no momento. São pequenas explosões que iluminam o caminho de quem as cerca, ainda que brevemente, e causam impacto e mesmo quando se vão, ficam; se eternizam na lembrança.


Tenho a sorte de dizer que conheço uma pessoa assim. E não te prometo estar aqui para sempre, pois não quero soar mentirosa e desmedida. Não sou de fazer promessas futuras, não sei de nada do amanhã, tenho medo de não conseguir cumpri-las. Mas prometo para o agora ser tudo o que você merece. Prometo fazer o possível para corresponder ao seu carinho, mesmo culpada com a percepção de não conseguir me entregar, puxar pra cima na mesma proporção – mas reforço que juro, em minha insegurança, fazer o melhor de que sou capaz. Prometo acreditar em você, celebrar suas vitórias, te estender a mão quando o medo bater e a coragem faltar. Prometo te ouvir quando estiver triste, essa arte doída e esquecida de escutar com compaixão. E para uma única promessa futura, prometo te lembrar até o definitivo fim, grata e contente, mesmo se algum dia, por qualquer desrazão que seja, a gente se afastar.


Mas acabei caindo no ridículo. Não há mesmo como escapar. E talvez essa não seja, afinal, uma carta de amizade. Talvez essa seja uma ridícula, como todas as outras, carta de amor.

Feliz aniversário, Ana Carol.

Em qualquer contexto, você merece ser celebrada a cada dia que recomeça.



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