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RECANTO DA PROSA

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  • Aline Caixeta Rodrigues

Breve história de uma vida literária


Meu amor pela literatura começou cedo. Quando criança, nunca demonstrei muito interesse por bonecas, jogos ou mesmo por outras crianças, o que costumava deixar pais e professores preocupados com a minha suposta solidão. O que nenhum deles conseguia entender era que, graças aos livros, eu nunca estive, de fato, sozinha; meu mundo era muito mais povoado do que o de qualquer outra criança da escola, embora eu sofresse de um sério caso de timidez.


No colégio, tínhamos um horário por semana para ir à biblioteca escolher nossas leituras e nos espalharmos, em infinita liberdade. Uma goiabeira, em especial, era o meu lugar favorito, e com um livro numa das mãos, eu a escalava até o topo do mundo, onde podia ler em paz. Pais e professores continuavam preocupados, mas já não havia nada a ser feito: eu estava apaixonada.


Assim, naturalmente, depois da leitura nasceu o desejo pela escrita. Sempre gostei de inventar histórias e de contá-las para mim mesma (ou para minha irmã mais nova), mas nunca havia pensado a respeito disso. Foi apenas numa tarde de sexta-feira, na quarta série, que cometi um crime do qual não me livraria pelo resto da vida: matei aula para escrever.

Os dois últimos horários teriam de ser preenchidos na quadra de esportes, num jogo de futebol, e quando digo que aquilo era meu inferno particular, as pessoas não entendem, por isso sinto a necessidade de explicar o problema. A humilhação começava na divisão de times: A gente já ficou com a Aline, na semana passada, agora é a vez de vocês! Não! Nosso time já tá muito fraco. Põe a Aline no seu! E a coisa prosseguia: Aline, fica no canto da quadra, senão você atrapalha! Não passa a bola pra Aline que ela não vai pegar! Aí, a gente perdeu por causa da Aline.


E naquele dia, com dor de cabeça, não senti a mínima vontade de me submeter àquilo. Me tranquei no banheiro e me preparei para esperar por uma hora e quarenta minutos, tentando bolar um jeito de me esgueirar no meio da multidão quando nossos pais chegassem para nos buscar. Foi ali, num banheiro de escola, que vivi o que talvez tenha sido o momento mais importante de minha vida. Foi ali, que, entediada, resolvi abrir o caderno de literatura e comecei a escrever. Escrevi um conto, de cuja história não me lembro. Sei que o protagonista era um coelho, mas é só.


O plano para sair sem ser notada funcionou magistralmente, mas meu conto não passou despercebido. No dia seguinte, quando entregamos nossos cadernos à tia Odete - uma mulher severa, de cabelos curtos e óculos grossos - para que ela pudesse corrigir os deveres, nem me lembrei de que havia um segredo ali.


Uma semana depois, tia Odete devolveu nossos cadernos com as tarefas corrigidas e, ao passar por minha mesa, fez aquela coisa de olhar por cima dos óculos e disse em voz baixa: Você fica depois da aula, que eu quero conversar com você. Concordei lentamente com a cabeça, sentindo as mãos gelarem. Ficar depois da aula era problema. Eu nunca tinha ficado depois da aula. Fui descoberta, pensei, descobriram que estou matando aula e agora vou levar uma advertência.


Quando o fim da aula chegou (e não chegava nunca), todos saíram felizes. Todos menos eu. Enquanto tia Odete juntava suas coisas, eu a encarava, sem me mover da cadeira, esperando que ela não me notasse e fosse embora; mas tia Odete sempre foi boa em notar as pessoas. Quando terminou de arrumar seus pertences, ela levantou a cabeça na minha direção e sorriu. Não entendi o sorriso. Calmamente, tia Odete veio se sentar ao meu lado e me pediu meu caderno. Eu o entreguei em silêncio, só então me lembrando do conto rabiscado nas últimas páginas.


É isso! É por isso que eu fiquei depois da aula. Como nosso material era fornecido pela escola, nós não podíamos desperdiçar folhas ou a direção teria de nos comprar outro caderno. A política evitava uma série de aviõezinhos, bilhetinhos e bolinhas de papel.


O que é isso? Perguntou tia Odete, abrindo nas últimas páginas. Comecei imediatamente a me desculpar, concentrada em não deixar escapar nada sobre o banheiro ou a aula de educação física. Tia Odete ouviu minhas desculpas sorrindo e, ao final, balançou a cabeça. Eu só queria saber se foi você que escreveu isso. Assumi a autoria e voltei a me desculpar, ainda sem entender o que estava acontecendo. Ela riu. Aline, eu não estou brava com você. Eu só acho que você tem talento para escrever e que devia publicar isso. Se você deixar, eu converso com o professor de artes para publicar no jornal da escola.


Pisquei abobalhada por algum tempo e concordei. Não sei o que foi feito do conto, mas sei que ele não foi publicado. Pouco importava. Algo maior tinha sido desencadeado naquele dia. Lembro de ouvir minha mãe contando a meu pai o que tia Odete tinha lhe dito, enquanto eu fingia dormir. Aos dez anos eu decidi o que iria fazer da vida - e tenho a rara sorte de dizer que nada pôde me demover do meu sonho de criança.


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