RECANTO DA PROSA

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Campo Geral (G. Rosa)



Seguindo com o projeto de elaboração das aulas voltadas para os vestibulandos da FUVEST 2022, embarquei no último fim de semana em Campo Geral, de Guimarães Rosa – e hoje trago uma resenha um pouco mais longa e analítica, focando em alguns conceitos teóricos e observações relativas à obra do autor; que acredito que possam auxiliar os estudantes.


Ainda me lembro do primeiro contato que tive com Rosa, na escola, quando era eu quem me preparava para o vestibular – o livro era Sagarana – e mais tarde de ter assistido a uma peça baseada na produção literária do autor. Logo na primeira palavra dita no palco, me senti arrepiar: Nonada. Chamo a atenção para a abertura dessa peça – que também é a primeira palavra do Grande Sertão: Veredas – pois quero focar essa resenha no aspecto que, para mim, é o ponto crucial da obra de Guimarães Rosa: a linguagem. Se você buscar Nonada no dicionário, irá encontrar a definição de algo insignificante. Mas esse não é o sentido de sua aplicação no texto. O que ela significa ali é uma outra coisa, e basta pensarmos na paisagem do sertão para intui-la.


Como mineira que sou, me delicio em encontrar na obra de Guimarães Rosa – e digo “obra” me referindo ao todo (muito coeso) de sua literatura – palavras que minha avó usa, ainda hoje, carregadas de um sentido poético e deslocado, que nem ela mesma percebe. Quer um exemplo? Contando um “causo” no outro dia, ela mencionou uma ocasião em que encontrou um cachorrinho “todo desmanchado” e o levou para casa para cuidar. Alguém tem alguma dúvida do que é um filhote “desmanchado”? Não é segredo que Rosa andou e andou pelo sertão, coletando palavras (o bom escritor é sempre um observador-coletor), experiências, paisagens, costumes, sabedorias e misticismos; mas engana-se quem pensa que suas palavras são “apenas” registros do falar sertanejo. Há um forte componente criativo ali, os chamados neologismos: invenções de palavras derivadas de outras já existentes; e/ou atribuições de sentidos diversos a elas (como é o caso do Nonada que mencionei). Esse é um processo que revela um profundo conhecimento da linguagem e que nos obriga – de uma forma bastante prazerosa – a prestar atenção às palavras que compõem a superfície do texto; pois em diversas ocasiões, precisamos destrinchá-las em busca de um sentido, seja pela análise de radicais e sufixos, seja pelo contexto. Se a princípio pode