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Frankenstein: ou O Prometeu Moderno

Mas agora que a virtude se tornou uma sombra para mim e a felicidade e o afeto se transformaram em amargura e num desespero pavoroso, a que devo recorrer para ter solidariedade?

Frankenstein, Mary Shelley



frankenstein

Normalmente não perco meu tempo com apresentações das autoras e autores nas resenhas, mas vou abrir uma exceção para Mary Shelley, a escritora aniversariante de hoje, por motivos de: pensa numa mulher forte!


Nascida em Londres, em 30 de agosto de 1797 (atenção ao contexto do século para considerar tudo o que essa mulher fez na vida), filha de um casal de filósofos e escritores com ideias muito progressistas, Mary W. Godwin já chegou ao mundo sofrendo uma grande perda: a mãe faleceu em decorrência de uma infecção pós-parto.


Aos 15 anos, Mary conheceu Percy Shelley, um jovem escritor admirador de seu pai, com quem logo iria iniciar um namoro às escondidas (afinal Percy era casado e pai de uma criança) - que depois de alguns meses culminaria na fuga do casal, em companhia da meia-irmã, Claire; o que causou um rompimento de dois anos com o pai.


No ano seguinte, Mary e Percy tiveram sua primeira filha, que nasceu prematura e morreu dentro de poucos dias, anunciando toda a dor que Mary teria de enfrentar diante da maternidade. Em 1816, após o nascimento do segundo filho, a família decidiu passar uma temporada em Genebra, onde se encontraram com Lord Byron, amante de Claire. No mesmo ano, Mary começou a escrever Frankenstein e sofreu a perda de outras duas irmãs, Fanny e Harriet, que cometeram suicídio.


Um anos depois, Mary teve sua terceira filha e concluiu o romance, que no ano seguinte foi publicado anonimamente, meses antes da morte da menina. Na sequência da tragédia, em 1819, Mary perdeu também o filho; mas ainda neste ano teve seu quarto bebê, Percy Florence. Três anos depois, Mary sofreu um aborto espontâneo, que pôs sua vida em risco; e perdeu o marido, afogado em um naufrágio. Apenas no ano seguinte, conseguiu publicar uma segunda edição de Frankenstein, dessa vez com seu nome.


Ao longo dos anos seguintes, a autora se dedicaria a escrever outros romances e a publicar dezenas de contos, biografias, poemas, artigos e ensaios, até que em 1839, sua saúde começou a se deteriorar, tornando a escrita a cada dia mais difícil. Por anos, Mary sentiu muitas dores de cabeça, até que em 1851, aos 53 anos, veio a falecer, vítima de um tumor no cérebro; deixando uma vasta produção e a imagem do monstro que viria a se eternizar como o Prometeu moderno.


mary shelley

Agora eu te pergunto: é ou não é a história de uma mulher das mais resilientes que esse mundo já viu? Como foi possível para uma pessoa só aguentar tantas tragédias e ainda conseguir produzir tanta coisa? Não sei vocês, mas eu jamais teria conseguido. E me pergunto, sem romantizar todo o sofrimento que Mary precisou enfrentar, se a resposta não está exatamente aí. Pois talvez tenha sido a própria literatura que a manteve viva, permitindo que canalizasse ao menos uma pequena parte de suas perdas imensuráveis para algo coerente, sob seu controle - e inegavelmente belo.


Há alguns anos, na faculdade, fiz uma iniciação científica sobre os efeitos da leitura literária em sujeitos em situação de crises emocionais traumáticas: pacientes de asilos, crianças em orfanatos, pessoas vivendo em zonas de guerra, refugiados, sobreviventes do holocausto... e onde quer que estivessem, não importando as circunstâncias, as pesquisas acabavam convergindo para os mesmos resultados: a literatura ajudava a organizar as coisas, dava forma a sentimentos tão aterradores que não podiam ser compreendidos, fazia com que as pessoas conseguissem se olhar de fora, encontrar alguma coerência, algum significado, escapes e às vezes até alguns caminhos. Não sou ingênua, não digo com isso que a literatura seja uma tábua de salvação universal e infalível. Mas que ajuda muita gente - sem que este seja o seu objetivo primordial - isso ajuda. Veja, por exemplo, as palavras da jornalista Laure Adler, que ao se referir à morte do filho, declarou:


"Se eu não me matei, foi porque me deparei sem querer com Uma barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras. [...] Posso garantir que um livro, substituindo o meu tempo pelo seu, o caos da minha vida pela ordem da narrativa, me ajudou a retomar o fôlego e a vislumbrar o amanhã. A determinação selvagem e a inteligência do amor manifestadas pela jovem de Uma barragem foram para isso, sem dúvida, influentes".¹


Voltemos, portanto, a Shelley e seu monstro. Ao contrário do que muitos pensam, Frankenstein não é o nome da criatura, mas do cientista que o trouxe à vida e que imediatamente, horrorizado pelo que havia feito, o rechaçou, condenando-o a vagar sozinho pelo mundo, sem nunca encontrar nenhum tipo de afeto, propósito ou qualquer sensação de pertencimento - o que inevitavelmente o levaria a se tornar aquilo pelo qual passou a ser conhecido, sem nome nem identidade: o monstro.


Acima de qualquer outra coisa, ao menos para mim, o sentimento predominante em relação à criatura é o de compaixão. Sim, o monstro é violento. É capaz de matar. É vingativo. Mas em sua essência é alguém que jamais conseguiu encontrar qualquer tipo de paz; e sua dor - quem sabe uma transmutação daquela vivida pela própria Mary? - nos provoca uma profunda empatia. Pois afinal, quem nunca se sentiu desamparado? Quem nunca se sentiu esmagado por uma solidão intransponível em algum momento da vida, mesmo que passageiro? Não à toa, o título alternativo do romance faz referência a Prometeu, um personagem da mitologia grega, condenado pelos deuses a ter seu fígado comido diariamente por uma águia e reconstruído durante a noite para sofrer a mesma punição no dia seguinte.²


A complexidade do monstro é para mim o ponto alto da narrativa. Ele tem contradições, tem camadas - e personagens assim sempre me fazem olhar para dentro e descobrir alguma coisa (mesmo que de vez em quando a experiência possa não ser das mais agradáveis). Sempre suspeitei que quem faz uma boa história não é o enredo, mas o personagem. E de uns tempos pra cá, tenho encontrado cada vez mais comprovações e teorias que apontam para a validade dessa ideia.³


No fim das contas, acho que não dá pra chamar este post de resenha, mas tudo bem. Pode chamar do que quiser. :) Deixo vocês, portanto, com as palavras do monstro de Frankenstein, e mesmo ciente de que este é um desfecho melancólico para o post, espero que você ache esse trecho tão bonito quanto eu acho.


"Outrora eu falsamente esperei encontrar seres que, relevando meu aspecto externo, iriam me amar pelas excelentes qualidade que eu era capaz de demonstrar. Nutri pensamentos elevados de honra e devoção. Mas agora o crime me degradou abaixo do mais vil dos animais. [...] Quando repasso o medonho catálogo de meus pecados não posso acreditar que sou a mesma criatura cujos pensamentos outrora foram tomados pelas visões sublimes e transcendentais de beleza e bondade. Mas é isso; o anjo caído se torna um diabo maligno. Mesmo assim, aquele inimigo de Deus e do homem tinha amigos e parceiros em sua desolação. Eu estou sozinho."


___


¹ A citação se encontra no livro A arte de ler, da antropóloga francesa Michèle Petit. Recomendo fortemente a leitura para interessados no tema da pesquisa que mencionei.


² A título de curiosidade, para muitos povos da antiguidade o fígado tinha a simbologia que damos hoje ao coração, enquanto órgão da vida relacionado aos nossos sentimentos. Já vi textos, por exemplo, em que casais apaixonados se chamavam de "meu figadozinho" (juro) e prometiam seu fígado um ao outro. Observe como o mito de Prometeu (e, por consequência, a história do monstro de Frankenstein) ganha uma nova camada com essa informação.


³ Aos escritores e escritoras por aí, tenho uma aula no canal sobre criação de personagens na qual tomei a criatura como um exemplo. Assista ao vídeo completo aqui.

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