RECANTO DA PROSA

Cantinho dedicado à leitura e à troca de ideias entre os amantes da literatura. Sinta-se em casa!

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  • Aline Caixeta Rodrigues

O videogame




Só deu tempo de pensar que eu não devia ter feito isso. O barulho foi muito mais alto do que eu achei que ia ser. Não parecia que tinha quebrado. Parecia que tinha explodido. Explodiu que voou pedaço pra todo lado. “A gente vai brincar junto todo dia, Lolô?”O Lucas é o único que me chama de Lolô.


A mamãe e o papai e todas as minhas amigas me chamam de Lola, que eu prefiro porque termina com “A”, mas ele só me chama de Lolô, desde bebê, e a gente acostumou assim. Eu sou três anos mais velha, três anos mesmo, certinho, a gente faz aniversário no mesmo dia, que nem se fosse gêmeos, só que a gente não é. Eu até queria ter uma irmã gêmea de verdade, uma menina. A gente ia poder estudar na mesma sala e brincar das mesmas coisas e eu não ia ter que ficar aturando um pirralho que fica no meu pé todo dia querendo jogar videogame.


Mas eu não tenho. E não devia ter feito isso. Só deu tempo dele falar “não”. Não gritou, não levantou do sofá, nem mexer direito, mexeu. Só arregalou o olho e abriu a boca e, enquanto eu abria os dedos, deixou escapar: “Não”.


Senti o plástico escorregando da mão, pensei que era bem-feito pra ele, que era pra ele largar de ser chato, que desse jeito ele ia finalmente me deixar em paz, que era justo, porque ele não devia ter me dedurado pra mamãe, só porque eu peguei emprestado o batom dela pra guardar na minha mochila... mas o que eu fiz foi pior. Assim que o videogame começou a cair, me bateu uma culpa danada. A maior culpa do mundo. Uma culpa tão grande que eu não tive nem coragem de olhar pra baixo e ver o que eu tinha feito. Só ouvi o barulho e olhei pra cara do Lucas olhando pro chão e vi que o que eu tinha feito era mil vezes pior do que o que ele tinha feito. Que não era justo coisa nenhuma.


Saí batendo os pés pra ir pro meu quarto e bati a porta e me joguei na cama e comecei a chorar. Esperei ouvir o Lucas correndo pelo corredor, entrando no meu quarto e começando a me socar e a chutar e morder, mas ele não veio. Ficou um silêncio de casa de filme de terror. Não sei nem como tive coragem de fazer isso. Não sei de onde veio essa raiva tão grande. Acho que foi porque ele não tava olhando pra mim.


Quando a mamãe saiu pra ir na feira da rua de baixo, levando o batom, depois de me dar uma bronca que eu não tenho idade pra usar maquiagem, eu esperei um pouco, pensei, pensei, e depois fui lá na sala brigar com ele. Gritei, xinguei, falei um monte, mas o Lucas nem desgrudou o olho da TV. Ficou lá jogando, fingindo que eu não existia, e quanto mais ele fingia que eu não existia, mais a minha raiva crescia, até sair daquele jeito: “OLHA PRA MIM QUANDO EU TIVER FALANDO COM VOCÊ!”. A mão foi até o videogame. O braço esticou sozinho, comprido. Os dedos agarraram o videogame e puxaram com força, arrancando os fios dos lugares, a TV ficou preta.


“A gente vai brincar junto todo dia, Lolô?”. “Vai”. “Promete?”. “Prometo”. “Você é a minha irmã mais legal do mundo”. A raiva virando dó. A dó virando culpa. A cara do Lucas olhando pras pecinhas no chão.


Na noite que a gente ganhou o videogame de aniversário, a gente jogou até ficar meio claro. O Lucas pôs a TV bem baixinho pro papai e a mamãe não acordarem e a gente só parou quando eu vi uma luzinha entrando pela janela da sala e olhei pro relógio e percebi que já era quase de manhã. Eu falei pro Lucas correr pro quarto dele e fui correndo pro meu, igual hoje, só que a gente tava rindo muito, porque a gente nunca tinha ficado acordado a noite toda.


Choro até cansar, depois levanto, enxugo o nariz e vou até a porta tentar escutar alguma coisa, ver se o Lucas tá chorando também, mas não escuto nada. Penso em abrir a porta, mas não quero olhar de novo pra ele. A culpa virou vergonha. Como é que eu vou pedir desculpa disso? Não tem como ele me desculpar. Nunca. Ele vai me odiar pra sempre agora.


Dou uma espiada pelo buraco da fechadura, mas só vejo o corredor vazio. E então escuto o barulho da chave da mamãe na porta e a vergonha vira medo. O videogame foi caro. O Lucas vai contar pra mamãe e ela vai contar pro papai e eu vou ficar de castigo pro resto da vida. Penso em ficar aqui no meu quarto fingindo que não fui eu e inventar uma desculpa e dizer que foi ele que deixou cair, porque sei que a mamãe vai acreditar mais em mim do que nele, mas não. Não posso fazer isso. Depois do que eu já fiz, ia ser muita maldade.


Enxugo a mão molhada na calça e abro a porta, devagar, pra ir até a sala. Ando que nem quando quero beber água à noite, sem fazer barulho, mas quando estou quase chegando lá, escuto a voz da mamãe, e ela não parece brava.


– Tá tudo bem, meu amor. Tá tudo bem. Acidentes acontecem.


O Lucas tá chorando. Ele soluça quando chora muito, então eu sei que ele tá chorando muito.


– Você foi muito honesto de me contar o que aconteceu. Não se preocupe, as coisas quebram de vez em quando mesmo.


Engulo o medo e continuo andando até chegar na porta da sala. A mamãe me vê ali e olha pra mim, mas não parece zangada.


– Vem cá, Lola. Busca um copo de água pro seu irmão.


Fico parada tentando ver a cara do Lucas, mas ele tá com o rosto enfiado no peito da mamãe, abraçando a cintura dela. Os pedaços do videogame estão no sofá, o Lucas deve ter catado depois que eu fui pro meu quarto.


– Anda, Lorena. Pega lá uma água.


Olho de novo pra mamãe e vou até a cozinha, tentando entender por que ela não tá brigando comigo. Encho o copo d’água e volto até a sala, a mamãe está enxugando as bochechas do Lucas com a mão. Vou até eles e entrego o copo, que o meu irmão pega sem olhar pra mim. Os olhos dele estão muito vermelhos e ele ainda tá soluçando.


– O Lucas deixou o videogame cair – diz mamãe. – Mas eu já falei que a gente vai comprar outro no aniversário de vocês. Um mais moderno. Só faltam duas semanas agora, né? Dá pra esperar, não dá, filho?


Meu irmão faz que sim com a cabeça, enquanto toma a água. Depois entrega o copo pra mamãe e ela levanta pra ir levar de volta pra cozinha. Olho pra ele, que continua olhando pro videogame quebrado e tomo coragem de olhar pro estrago que eu fiz. Quebrou feio mesmo. Não tem conserto. Quebrou não. Eu quebrei. “Você é a minha irmã mais legal do mundo”. Sinto o choro voltando, minha garganta dói de tentar segurar. Abraço meu irmãozinho e então sou eu que começo a soluçar.


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