RECANTO DA PROSA

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Pequena coreografia do adeus

Para quem tinha alguma dúvida se Aline Bei conseguiria nos surpreender depois de O peso do pássaro morto, de cara já adianto a resposta: Sim. E muito.


pequena coreografia do adeus

Embora eu já tenha recebido o livro há algum tempo (e o tenha lido de ponta a ponta em um fim de semana), venho protelando essa resenha pois, sinceramente, não sei ao certo o que dizer. A personagem central é Júlia Terra, uma jovem que "chegou à vida adulta tentando juntar os cacos de um relacionamento destroçado" entre a mãe e o pai, divorciados em função de uma incompatibilidade que criou um lar de tensão e brigas constantes.¹ Ao longo da infância e da adolescência, Júlia vai acumulando traumas, abandonos e culpas, num movimento de aproximação e afastamento dos pais, enquanto descobre o balé e escreve um diário. Com o passar dos anos, seu caminho vai se cruzando com o de outros personagens marcantes, como a magnética professora de dança; uma viúva, dona de um pensionato que costumava ser um bordel; um boxeador muito sensível que se aposentou depois de quebrar as costelas; a melancólica proprietária de um café, cujo filho foi estudar na França; e até mesmo um misterioso escritor.


Panorama geral posto, vamos ao que interessa. Em sua essência, este é um livro sobre relações parentais - e parando por aí, já temos material para qualquer pessoa dedicar alguns anos à terapia. Não à toa, os conflitos entre pais e filhos, na literatura, estão aí desde a antiguidade clássica. Não à toa, deram as bases a infindáveis estudos psicanalíticos. E não à toa, quando postos em uma narrativa, reviram todo o lodo que acumulamos, trazendo à tona pedaços cheios de lama daquilo que escondemos de nós mesmos.


Este é, para mim, o efeito mais potente da literatura de Aline Bei: o de levantar o tapete e mostrar o que se ajuntou embaixo. Em O peso do pássaro morto, senti que meu tapete foi arrancado de mim com certa violência; e mesmo que eu tenha gostado muito do livro, precisei fechá-lo mais de uma vez durante a leitura, para me enrolar num cobertor feito um caracol. Já em Pequena coreografia do adeus, por mais dolorosas que sejam as palavras postas ali, e mesmo diante de um tema ao qual sou bastante sensível, não me senti tão pesada - e é neste ponto que entramos no segundo aspecto importante da escrita de Aline Bei: o seu estilo.


Em seu novo livro, a autora consagra (com sucesso!) uma literatura muito própria, que mescla os elementos da poesia e do romance, equilibrando densidade e leveza. Sim, os acontecimentos narrados são violentos, terríveis, mas contados com palavras escolhidas a dedo de poeta; capazes de atingir no leitor o ponto médio, exato, entre o horror e a beleza. Dói? Dói. Mas não a ponto de machucar. Pois assim que a dor começa a se intensificar, você se depara com versos como esses, que funcionam como uma compressa de gelo na ferida:


[...] uma conversa em família

nunca foi possível, não na minha casa

lá somos três solitários

irreversíveis

gravemente feridos

da guerra que travamos contra nós

ainda que meu pai não more mais com a gente, seu fantasma está por toda parte

e flana

pelos corredores

somos

ruína e pó.

nosso jeito de conversar, diretora, é nos machucando

não por mal, não somos maus

somos tristes e isso é o que fazemos com a nossa solidão.


Lindo, não? Pois é. O livro inteiro é assim. Não costumo gostar de romances experimentais; acho que raramente funcionam, que são confusos ou que criam empecilhos desnecessários, muito mais significativos para o ego do autor do que para o romance em si.


Mas este obviamente não é o caso. A leitura flui com naturalidade, tanto como narrativa, quanto como poema. Estruturalmente, o enredo é simples e linear (no melhor sentido da palavra "simples", que não cria dificuldades gratuitas); com personagens sólidos; uma configuração espaço-temporal clara; e uma voz narrativa forte e limpa - elementos que constroem a possibilidade de manipulação criativa da linguagem, sem que o leitor se perca. É como eu disse: Aline Bei encontrou a dosagem adequada para cada componente do romance. E em seu segundo livro, me atrevo a dizer que seu domínio sobre a própria escrita se mostrou mais evidente.


Por hoje, não tenho muito mais a comentar. (Quer dizer, eu poderia passar algumas horas falando sobre esse livro, mas não caberia tudo num post). Por isso concluo dizendo que Pequena coreografia do adeus é, sem dúvida, um dos melhores livros que li nos últimos tempos; e reitero meu alerta aos interessados: não há como sair dessa leitura sem revirar o próprio lodo, então respire fundo antes de mergulhar.


_____


¹ O trecho entre aspas faz parte do texto de orelha do livro.


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