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As Meninas

 

 

Título original: As Meninas

 

Autora: Lygia Fagundes Telles

 

Ano de publicação: 1973

 

Editora: Companhia das Letras

 

Nº de páginas: 301

 

 

 

A obra:

 

As Meninas trata-se de um dos mais célebres romances de Lygia Fagundes Telles, publicado em 1973, após três anos de trabalho. Recebeu os prêmios Jabuti, Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras e Ficção, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); além de ter sido considerado um texto muito ousado, por expor “em plena quadra de horror, o nosso primeiro depoimento de tortura” (RAMOS, Ricardo; IN: posfácio, p. 282).

 

O romance se desdobra em torno de três personagens – Lorena, Lia e Ana Clara – inseridas em meio ao contexto de um dos mais conturbados períodos da história do Brasil: a ditadura militar. O golpe de 64 não é o tema principal da narrativa (que se ocupa de conflitos mais existenciais do que políticos), embora o clima de medo, violência e repressão esteja presente no pano de fundo da obra.

 

A história toda se passa em cerca de dois dias, no final da década de 60, durante uma greve estudantil, em São Paulo. O centro espacial do conflito é um pensionato de freiras, chamado Nossa Senhora de Fátima, onde vivem as três meninas, cada qual presa a um conflito pessoal. O tempo é prioritariamente psicológico e a maior parte da ação narrativa é interiorizada.

 

Lorena Vaz Leme – a personagem de maior destaque – é a mais estável das três. Estudante de Direito, filha de fazendeiros, culta e aristocrática, Lorena passa a maior parte do tempo dentro de seu quarto-concha "rosa e ouro", bebendo chá, tomando banho, lendo, ouvindo música, filosofando, recebendo visitas (que constantemente vêm lhe pedir ajuda financeira) e, mais do que qualquer outra coisa, esperando uma ligação de M. N. – um homem casado, pai de cinco filhos, com quem ela espera perder sua virgindade. Embora viva imersa em sonhos e fantasias, Lorena não consegue superar o trauma de, quando criança, ter presenciado o acidente que arruinou seu núcleo familiar; no qual seu irmão Rômulo, morreu pelas mãos de seu irmão Remo (diplomata na África, que costuma lhe escrever e mandar presentes).

 

Lia de Melo Schultz, por outro lado, é uma mulata inquieta, de poucos recursos, e que não dá nenhuma importância à sua aparência. Filha de uma baiana e de um alemão (ex-oficial nazista), Lia cursa Ciências Sociais e dedica-se ativamente a um movimento militante (que ela chama de “o aparelho”). Gosta de escrever, mas não sabe como harmonizar suas pretensões literárias com o seu discurso ideológico; e passa boa parte do tempo andando pelas ruas e evitando a polícia – que ela teme desde a prisão de Miguel (um ativista com quem está envolvida). Embora considere Lorena “uma burguesa alienada”, Lia se relaciona bem com a amiga e vive lhe pedindo dinheiro – ou “oriehnid”, como elas dizem – para ajudar a sustentar “o aparelho”.

 

Ana Clara Conceição é quem possui o temperamento mais problemático das três. Aspirante a modelo, filha de um pai desconhecido e de uma prostituta (que se suicidou), Ana Clara – ou “Ana Turva”, como as amigas a chamam – foi vítima de abuso sexual e é usuária de drogas. Embora seja apaixonada pelo traficante Max, Ana Clara é noiva de outro: um homem rico, que ela considera “escamoso”. Deseja realizar seus sonhos de ascensão social através do casamento e sonha em, um dia, terminar a faculdade de Psicologia. Fraca, doentia e grávida de um filho que deseja abortar, Ana Clara não consegue se livrar do peso de suas memórias, nem lutar contra o vício que a consome.

 

Em termos gerais, a narrativa aborda o drama da definição e da busca de um caminho livre das imposições sociais, mas no fim, temos uma série de fracassos e uma dispersão irremediável entre os destinos das personagens.

 

Entretanto, o mais interessante da obra está no modo pelo qual a história é contada, uma vez que o foco narrativo se desloca pelo fluxo de consciência das personagens; que se entrevistam, se apresentam e refletem longamente sobre si e sobre as outras. De início, sentimos alguma dificuldade para identificar o estilo de cada uma (e, verdade seja dita, alguns trechos podem ser cansativos), mas uma vez que nos acostumamos com esse foco cambiante, podemos apreciar seus efeitos fragmentários e perceber as particularidades de cada voz. Há ainda um narrador muito discreto (em terceira pessoa) que nada fala de si e que costura passagens do enredo, sem saber de nada sobre o passado ou o futuro das personagens, assemelhando-se a uma lente que só consegue flagrar o momento presente. O resultado é que temos um romance muito dramático, com longos monólogos interiores, solilóquios e diálogos precisos.

 

No geral, tivemos a impressão de que a obra é muito bem escrita e que a autora construiu uma intimidade forte com suas personagens. Além disso, vale destacar que o romance aborda diversos temas sociais e que foi necessária uma boa dose de coragem para publicá-lo num contexto em que a censura se mostrava severa. Não é sem razão que As Meninas continua a ser uma obra tão lida e tão apreciada há mais de 40 anos, no Brasil e no exterior. A leitura vale o esforço.

 

A autora:

 

Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo, filha de um promotor público e de uma pianista. Cursou o ensino fundamental na Escola Caetano de Campos e se formou tanto na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, quanto na Escola Superior de Educação Física, da USP.

 

Ainda adolescente, manifestou sua vocação para as letras, recebendo o incentivo de seus amigos Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo e Edgard Cavalheiro; mas para a autora, o marco inicial de sua obra só se deu em 1954, com a publicação do romance Ciranda de Pedra. No mesmo ano, nasceu o filho Goffredo da Silva Telles Neto, fruto de seu primeiro casamento e, ainda na década de 50, publicou Histórias do Desencontro (1958).

 

 Em 1963, casou-se com o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes – com quem viria a escrever o roteiro de Capitu (1967) – e publicou a obra Verão no Aquário, pela qual recebeu o prêmio Jabuti.

 

A década de 70 foi um período de intensa atividade literária, durante o qual Lygia Fagundes Telles consagrou seu nome, com alguns de seus livros mais importantes, tais como: Antes do Baile Verde (1970), As Meninas (1973), Seminário dos Ratos (1977) e Filhos Pródigos (1978). Daí em diante, a autora publicaria ainda A Disciplina do Amor (1980), As Horas Nuas (1989), A Noite Escura e Mais Eu (1995), Invenção e Memória (2000), Durante Aquele Estranho Chá (2002) e Conspiração de Nuvens (2007).

 

Acumulando mais de uma dezena de prêmios ao longo de sua carreira, Lygia Fagundes Telles teve sua consagração definitiva em 2005, ao receber o prêmio Camões – o maior em língua portuguesa – pelo conjunto de sua obra.

 

Trabalhou como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, até se aposentar, foi presidente da Cinemateca Brasileira e é membro da Academia Brasileira de Letras. Teve seus livros publicados em diversos países e várias obras adaptadas para o cinema, o teatro e a televisão.

 

Referências:

 

- TELLES, Lygia Fagundes. As Meninas; posfácio de Cristovão Tezza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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