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O trabalho Recanto da Prosa de Aline Caixeta Rodrigues está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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Com quantas pontas se faz um triângulo?

 

 

Eu gostei dele desde o primeiro dia na escola nova, quando deu a hora do recreio, todo mundo saiu correndo e ele gritou comigo: ué, você não vem não? Na escola antiga, a tia levava o lanche na sala; eu não sabia que na escola nova, a gente tinha que correr para consegui-lo (o que era má notícia, porque correr não era o meu forte).

 

Evidentemente, havia outras diferenças na escola nova. Ali, havia uma coisa chamada “matérias” e logo descobri que, assim como correr, matemática também não era o meu forte. Não que eu tivesse algo contra os números. Eles eram legais. Serviam para contar coisas e tal. Dava até para desenhar neles. Eu sabia transformar o 2 num pato, o 8 num gato e o 5 numa cobra. Mas por que raios alguém inventou de somá-los?

 

Perguntei à minha mãe se não podia voltar para a escola antiga, onde não havia matemática, mas ela só riu e disse: Não dá, filha. Lá só tem jardim de infância. Balancei a cabeça, desanimada, arrastei os pés até o meu quarto, apanhei um gibi, debaixo da cama, tive uma ideia brilhante e voltei correndo para minha mãe. E se eu mudar pra escola nova da Isadora? Ela riu outra vez. Todas as escolas têm matemática.

 

Então o jeito era aprender a somar. Essa era a minha recompensa por não repetir o Jardim 2. Comecei a suspeitar que o mundo era meio injusto, mas percebi que minha opinião tinha algo de homogêneo. Era a tia Vânia anunciar aula de matemática e iniciavam-se as lamentações. Todo mundo reclamava. Todo mundo. Menos ele.

 

Ele era bom naquilo. Ninguém contava os dedos tão depressa, nem sabia somar os números grandes como ele. E não fosse o bastasse, ele ainda tinha a letra bonita, gostava dos mesmos gibis que eu e nunca deixava a tia Vânia irritada. Um bom partido. Mamãe iria gostar dele, se um dia a gente se casasse.

 

Devagar, fui pulando as cadeiras, para me sentar ao lado dele. Uma cadeira por dia, para não dar na cara, senão todo mundo ia saber e estaríamos eternamente arruinados. Por sorte, meu plano deu certo. Dentro de uns poucos dias, eu estava ao seu lado, fazendo todo o esforço do mundo para me controlar e não encostar a mão em seu cabelo. Era muito escuro e muito liso, quase líquido.

 

Aos poucos, fomos ficando amigos. Eu, ele... e a Laís – que também tinha o cabelo liso. Por três anos, fomos inseparáveis. Estávamos sempre juntos, nos trabalhos em grupo, no recreio, nos eventos da escola, no portão, à espera de nossos pais.

 

Até o dia da goiabeira.

 

Era quase uma hora da tarde, a aula não tinha começado e ele ainda não havia chegado. Laís e eu estávamos conversando, já dentro da sala. Eu queria conferir as respostas da tarefa de casa, mas ela estava fazendo corpo mole.

 

O que você escreveu na quatro?

 

Hmm?

 

Na quatro? O que você escreveu?

 

Aos nove anos, Laís já era lânguida feito uma gata e tinha algo no olhar que nenhum de nós entendia, mas que parecia atrair todos os meninos da turma. Laís apanhou o caderno na mochila e folheou preguiçosamente as páginas, enquanto eu olhava nervosa para a porta. Se a professora chegasse, ela poderia achar que eu estava tentando copiar as respostas.

 

Anda logo, Laís.

 

Ela fechou o caderno, num movimento súbito e girou os olhos para mim, por baixo da franja lisa. Por um momento, achei que tivesse se irritado com minha pressa, mas então ela sorriu.

 

Você sabe guardar segredo?

 

Sei. Respondi, dando de ombros.

 

Ela riu e escondeu o rosto entre as mãos. Depois abriu os dedos e espiou pelas frestas, com seus olhos cinzentos.

 

É que eu estou gostando de uma pessoa.

 

Aquele menino da quarta série?

 

Ela negou com a cabeça. Voltou a esconder os olhos. Pensei mais um pouco.

 

O que ficou te mandando bilhetinho na festa junina?

 

Não. Respondeu ela, com a voz abafada, por trás dos dedos.

 

O irmão da Júlia?

 

Ai meu Deus, não. Disse ela, baixando as mãos, com impaciência. Não acredito que até agora você não adivinhou.

 

Voltei a dar de ombros. Honestamente, eu não ligava. Só queria saber o que ela tinha escrito na questão quatro.

 

É o PJ.

 

Olhei para a porta, na certeza de que ele havia chegado e de que ela iria deixar o assunto para mais tarde, mas ele não estava ali. Demorei um segundo a entender.

 

O quê?

 

Ela voltou a esconder o rosto.

 

O PJ? Nosso PJ?

 

É.

 

Não respondi. Não era justo. Laís poderia escolher qualquer outro garoto. Por que ela queria justo ele? E o que iria ser de mim, se os dois fossem namorados e depois se casassem? A madrinha? Será que eles ainda iriam me querer por perto? Será que eu iria aguentar a ideia de minha melhor amiga se casando com o amor da minha vida?

 

O que você acha? Perguntou ela. Nem percebi que ela havia baixado as mãos, descobrindo o rosto, novamente. Ela era tão linda. Fazia sentido que os dois ficassem juntos. Os dois tinham o cabelo liso.

 

Não sei. Murmurei.

 

Agora é a sua vez. Disse ela, toda animada.

 

Minha vez de quê?

 

Eu te contei de quem eu gosto. Agora conta você.

 

Baixei os olhos e abri o caderno.

 

Eu não gosto de ninguém.

 

Mentira! Ela riu. Eu te contei, agora você tem que me contar também.

 

É verdade. Eu disse. Eu não gosto de ninguém.

 

E nunca mais iria gostar. Ou era o PJ ou eu iria virar freira.

 

Conta, Aline! Conta!

 

Senti que iria chorar. Eu não queria virar freira. Não queria ser madrinha. Não queria contar nada. Só queria saber a droga da resposta da questão quatro.

 

Tá bom! Gritei, fechando o caderno. Se quer saber, eu gosto do PJ também.

 

Ela piscou os olhos. O sorriso morreu.

 

E agora? Perguntou, transtornada. O que a gente vai fazer?

 

Eu não sei.

 

Laís pensou por um momento.

 

Vamos contar para ele. Daí ele escolhe de quem ele gosta.

 

Meu primeiro instinto foi recuar e dizer que eles podiam se casar e viver felizes para sempre, mas eu não podia desistir do meu grande amor, sem nem ao menos tentar. Concordei com o plano.

 

No recreio a gente conta para ele. Disse a Laís. A gente se encontra debaixo da goiabeira. Vamos um de cada vez, para ninguém desconfiar.

 

Não sei exatamente do que alguém poderia desconfiar, mas a Laís assistia novela e entendia mais dessas coisas do que eu. Quando o PJ chegou para a aula, ela lhe escreveu um bilhetinho e ele balançou a cabeça, em concordância.

 

Chegou o recreio e corri para a goiabeira. Nem me dei ao trabalho de buscar meu lanche. Tinha comido uma legião de borboletas. Ele chegou depois, mastigando um cachorro quente, todo tranquilo. Perguntou o que estava acontecendo. Eu disse a ele para esperar a Laís. Nos sentamos, em silêncio, na grama e esperamos. Ela demorou. Achei que tinha desistido, mas quando o recreio já estava quase acabando, a Laís apareceu. Tinha passado gloss e prendido a franja com um grampo de flor. Achei desleal.

 

A gente queria te contar uma coisa. Disse ela, sorrindo.

 

O quê? Ele perguntou, lambendo o molho de tomate dos dedos.

 

Laís respirou fundo, mordeu os lábios e olhou para mim. Me levantei e o encarei com algo que deve ter parecido raiva.

 

A gente gosta de você.

 

Falei e pronto. O queixo dele caiu. Ninguém se mexeu por um instante e então ele começou a rir.

 

Eu sabia! Gritou.

 

E então o PJ deu um pulo, saiu correndo e nos deixou ali, pensando que coisa esquisita que era o amor.

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