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O trabalho Recanto da Prosa de Aline Caixeta Rodrigues está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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Bartolomeu Feio

 

 

Há uma ruazinha na zona sul de São Paulo, paralela à avenida Roberto Marinho, com aproximadamente um quilômetro de extensão, faixa dupla, prédios baixos e quase nenhum comércio. Ali, as pessoas passeiam com os cachorros, lavam calçadas, atravessam na faixa de pedestres e falam do tempo ou das obras do monotrilho, que nunca sai. Nada de incomum. Nada de interessante, a não ser seu nome: Bartolomeu Feio.

 

Conferi todas as placas, de todos os cruzamentos da rua, para ter certeza de que aquilo era sério. O quão desagradável aos olhos uma pessoa precisa ser, para ser lembrada assim? E quem foi que rotulou o pobre Bartolomeu? Um coleguinha maldoso? Um rival nos negócios? Uma esposa amargurada? Há muita gente que entrou para a história com um adjetivo em lugar de sobrenome. Que eu me lembre, já vi “o piedoso”, “o justo”, “o magnânimo”, “o grande”, até mesmo “o calvo”, e é claro “o belo”. Mas “Feio”? Assim, em letra maiúscula? Limpo, direto e taxativo? Nunca.

 

Tentei pesquisar pelo nome, mas só encontrei mapas e ofertas de imobiliárias, no local – a rua até que é bonita, bem arborizada, muito simpática. Tentei de novo: Bartolomeu Feio homem. Muitos Bartolomeus de nariz grande, orelhas de abano, dentes tortos, sobrepeso, ou problemas de pele, mas nada de encontrar O Feio. Só depois de algum tempo, descobri umas poucas linhas de informação, mas sem nenhuma foto, nem mesmo em preto-e-branco; o que foi bem frustrante, pois estava pronta a submeter Bartolomeu a meu próprio julgamento (e como me sentia bastante piedosa e magnânima naquele dia, creio que teria arranjado jeito de lhe encontrar uma ou duas qualidades).

 

Eis então o que descobri: Bartolomeu Bueno Feio (“Feio” era mesmo o seu sobrenome), filho do capitão Manoel Francisco Bueno e de Lucrecia Lemes de Cerqueira, foi um bandeirante paulista do século XVIII. Casou-se com uma Rosália, teve uma porção de filhos, lutou na Guerra dos Emboabas e faleceu em sua fazenda – Babilônia – em 1816. Foi uma figura controversa e confunde-se, no entender de certos autores, com Bartolomeu Bueno da Silva, que também não descobri se era feio ou bonito.

 

Conclusão é que com um sobrenome desses (que, detalhe: não veio da mãe, nem do capitão), das duas, uma: ou o pequeno Bartô nasceu com mais cara de joelho do que o normal, ou seus pais estavam muito entediados e, por alguma razão, acharam que seria engraçado amaldiçoar o próprio filho.

 

Pobre Bartolomeu. Mal posso imaginar o que sofreu na infância.

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