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História do novo sobrenome

 

Atenção! Este post contém informações reveladoras sobre o enredo.

 

 

Título original: Storia del Nuovo Cognome

Autora: Elena Ferrante (pseudônimo)

Coleção: Série Napolitana

Editora: Biblioteca Azul

Tradução: Maurício Santana Dias

Ano de publicação no Brasil: 2016

Nº de páginas: 470

 

“Como é fácil falar de mim sem Lila: o tempo se aquieta, e os fatos salientes correm pelo fio dos anos como bagagens na esteira de um aeroporto; você os apanha, os coloca na página, e está feito. Mais complicado é dizer o que naqueles mesmos anos aconteceu com ela. Nesse caso a esteira retarda, acelera, faz uma curva brusca, sai da rota. As malas caem, se abrem, seu conteúdo se espalha aqui e ali. Objetos dela vão parar entre os meus, sou forçada, para acolhê-los, a retornar ao relato que me diz respeito [...] ampliando frases que agora me soam demasiado sintéticas”.

 

Resenha:

 

Em História do novo sobrenome, o segundo volume da tetralogia napolitana, lançado em 2016 no Brasil, com a tradução de Maurício Santana, Elena Ferrante nos traz de volta para junto de Lenu e Lila, as duas protagonistas de A amiga genial. Sucesso tanto entre o grande público, quanto entre a crítica literária, o segundo volume da série não decepciona as elevadas expectativas de quem se apaixonou pelo primeiro.

 

A obra se inicia “na primavera de 1966”, quando “em um estado de grande agitação”, Lila entrega uma caixa de metal com oito cadernos à narradora, Elena Grecco, que por meio deles tem acesso a uma série de informações sobre a amiga e pode conhecê-la ainda mais profundamente. Os cadernos, com relatos e descrições minuciosos, desenhos, exercícios de escrita e reflexões descontínuas, possuem a mesma “força de sedução que emanava de Lila desde pequena” e uma naturalidade por trás da qual “havia com certeza um artifício”, mas que Elena não consegue descobrir qual. Perturbada com a força das palavras de Lila, Elena acaba por jogar tudo no rio: “Não aguentava mais sentir Lila acima e dentro de mim, mesmo agora que eu era muito estimada, mesmo agora que tinha uma vida fora de Nápoles”.

 

Do segundo capítulo em diante, Elena irá narrar tanto a sua juventude, marcada principalmente por uma luta constante pela ascensão social, através dos estudos; quanto a de Lila, recém-casada com Stefano Carracci, o rico dono da charcutaria local. A história é retomada do ponto onde havia sido interrompida: a chegada de Marcello Solara à festa de casamento, usando os sapatos que Lila havia feito.

 

“Em meu peito cresceu a raiva que era dela, uma força minha e alheia que me encheu do prazer de perder-me. [...] Só em seguida compreendi estar condenada a ser quietamente infeliz porque sou incapaz de reações violentas, porque as temo, prefiro ficar imóvel, cultivando o rancor. Lila, não”.

 

E assim começa o fim do casamento de Lila (dado o ódio que ela sempre sentira pela família Solara) e o início de um longo período de violência, no qual Stefano irá se revelar muito mais parecido com o pai, Dom Achille, do que a princípio parecera. As constantes agressões de Stefano, no entanto, não são capazes de dobrar a personalidade forte de Lila, que manterá viva sua inteligência afiada, sua rebeldia e seu destrutivo poder de atração sobre todos os que a cercam.

 

A história passa então por uma série de eventos conturbados, tanto para Lila, presa à família, às disputas do bairro e aos negócios com os irmãos Solara; quanto para Elena, que sofre com os estudos, o medo de nunca conseguir realmente fazer parte da alta sociedade e a sua incapacidade de dissociar-se da amiga: “Queria acabar com os estudos, com os cadernos cheios de exercícios. De resto, exercitar-me para quê? O que eu podia me tornar fora da sombra de Lila não contava nada.”

 

Os espaços da narrativa se ampliam para além da periferia napolitana, onde o machismo e a pobreza seguem dominantes, o mundo parece se alargar, cheio de conflitos políticos entre as nações (que, no entanto, parecem irreais perto da realidade cotidiana); e se antes as personagens eram expectadoras do mundo adulto, elas agora fazem parte dele.

 

Ao longo da história, o casamento de Lila vai de mal a pior até que, durante umas férias em Ischia, ela se envolve com Nino Sarratore, o amor platônico de Elena. O espelhamento entre as duas personagens parece chegar ao seu auge, quando na noite em que Lila decide dormir com Nino, Elena se entrega ao pai dele, Donato: o mesmo homem que a assediara quando adolescente.

 

Embora tente fugir de Lila e do bairro onde crescera, Elena está sempre voltando a ambos, ora atraída por eles, ora com repulsa. Ao final da narrativa, Lila acaba deixando Stefano e a riqueza para trás e vai viver na miséria com Enzo Scanno e o filho (cujo pai é Nino, que por sua vez a havia deixado). Elena, por outro lado, está noiva de um estudante de família renomada, conseguiu se formar em Pisa e realizou o sonho de publicar um livro; embora reconheça, amargurada, que “o coração secreto” de seu texto possui raízes numa história criada por Lila, quando criança.

 

Terminada a leitura, a força da escrita de Ferrante permanece, com sua aparente simplicidade, deixando o leitor – mais uma vez – ansioso pelo próximo volume. A sensação que fica é a de que suas personagens são pessoas de carne e osso, presentes e instigantes e a de que precisamos continuar a conhecê-las, por meio dessa narrativa envolvente e de brutal honestidade.

 

 

 

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana, que em outubro de 2016, foi exposta por um jornalista italiano, sob a identidade da tradutora Anita Raja (casada com Domenico Starnone - cujo nome também já havia sido levantado como um possível autor por trás do pseudônimo), gerando revolta entre leitores, escritores e editores. A autora já foi traduzida para mais de 40 países, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos, sendo 47 mil deles no Brasil. Anita Raja não se pronunciou sobre o assunto e tampouco os editores de Elena Ferrante, que classificaram o comportamento do jornalista como "nojento", dada a proposta da autora de se manter no anonimato.

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