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O trabalho Recanto da Prosa de Aline Caixeta Rodrigues está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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Ia ser legal ser um fantasma

 

“Ia ser legal.”

 

“O quê?”

 

“Ser um fantasma.”

 

“É. Ia mesmo.”

 

Uma das – raras – vantagens de se viver num condomínio com uma elevada densidade demográfica infantil é poder ouvir esse tipo de diálogo, em plena quarta-feira, a caminho da academia. Acaba compensando os gritos, as birras e os garotinhos com as pistolas d’água, que querem “matar a moça”.

 

Porque é exatamente esse o tipo da conversa que te faz pensar: quando foi que eu quis ser qualquer outra coisa, além de humano? Não que ser humano não seja legal, é bacana. Os tempos são melhores para quem tem polegares opositores do que para quem anda sobre quatro patas, eu acho, mas será que não dá mesmo para ser nada diferente?

 

Para a dupla de garotos que cruzou meu caminho, na última quarta – dois irmãos que teriam sido gêmeos absolutamente idênticos, se um deles não tivesse nascido uns dois anos antes – a opção por ser um fantasma parecia apresentar perspectivas muito mais agradáveis do que a de ser um homem; o que fez bastante sentido para mim.

 

Ri, mas ri de tristeza. De pensar que, em breve, aqueles dois meninos trocarão os fantasmas por advogados, engenheiros ou médicos e que irão fincar os pés no chão. Que se tornarão adultos sérios, daqueles que dizem “essas coisas não existem” e que, no entanto, farão fila no cinema para assistir a qualquer coisa assinada pelo Stan Lee, desejando secretamente que alguma organização do governo os transforme em super-heróis.

 

Mas não vim até aqui para advogar a favor daqueles que desejam seguir uma carreira desencarnada; não sei até que ponto isso é saudável. Só contei toda essa história a fim de lembrar o quanto é importante acreditar no que existe para além dos limites da realidade, mesmo (ou talvez principalmente) depois de adultos, afinal as coisas mais reais e mais poderosas da vida – o amor, o luto, a tristeza, os desejos, crenças, esperanças e ambições – são tão impalpáveis e incompreensíveis quanto fantasmas.

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