Direitos autorais

O trabalho Recanto da Prosa de Aline Caixeta Rodrigues está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

Isso significa que: você está autorizado a compartilhar os conteúdos deste blog, desde que atribua os devidos créditos à autora; mas sem alterá-los de nenhuma forma ou utilizá-los para fins comerciais.

O conto da aia

 

Título: O conto da aia

Título original: The Handmaid’s Tale

Autora: Margaret Atwood

Ano de publicação: 1985

Tradutor: Ana Deiró

Editora no Brasil: Rocco 

Nº de páginas: 366

 

Publicado pela primeira vez em 1985 pela escritora canadense Margaret Atwood, O conto da aia tem ganhado cada vez mais leitores ao redor do mundo e figurado entre as listas de livros mais vendidos de diversos países. Em 1987, recebeu o prêmio Arthur Clarke Award, depois de ter sido nomeado ao Nebula Award e ao Prometheus Award – ambos prêmios de ficção científica. Entretanto, Atwood nega a ideia de que O conto da aia seja uma obra do gênero, preferindo o termo “ficção especulativa”.

 

Recentemente adaptada para a televisão por Bruce Miller, a obra deu origem à série homônima premiada com 8 estatuetas no Emmy Awards de 2017, dentre as quais: Melhor Série, Melhor Atriz Principal, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Direção e Melhor Roteiro (todas na categoria Drama).

 

(clique na imagem para assitir ao trailer)

 

A história se passa em um futuro distópico, pouco tempo depois de um golpe militar que derrubou o governo democrático norte-americano e transformou os Estados Unidos em uma teocracia chamada República de Gilead. Nesse sistema, as liberdades individuais e direitos civis foram subitamente revogados e as mulheres se tornaram propriedade do estado, sendo proibidas de ler, estudar, votar, trabalhar ou possuir qualquer tipo de renda. Tudo o que elas possuem – inclusive o próprio corpo – passa a ser propriedade dos homens; e atos banais são transformados em crimes puníveis com a morte. A elas, cabe cumprir o papel que lhes é designado pela sociedade, segundo as funções para as quais são escolhidas: existem as Esposas e as Filhas; as Marthas – responsáveis pelos serviços domésticos; as Tias – cuja função é “educar” as Aias; e estas últimas, que servem apenas para a procriação. Em um país assolado pelos efeitos da radioatividade, no qual grande parte da população se tornou infértil, uma mulher capaz de gerar um filho é um objeto raro e, portanto, valioso.

 

Quem narra a história é a protagonista Offred, nome que se origina de "of Fred", ou seja: “do Fred” (em livre tradução para português). Seu verdadeiro nome, assim como todas as suas posses e até mesmo a sua família se tornaram apenas memórias, cada vez mais vagas e distantes de sua nova realidade. A vida de Offred se resume a fazer compras no mercado, rezar e, é claro, ter relações sexuais com o comandante que detém o direito de posse sobre o seu corpo. Se quebrar as regras, Offred pode ser enforcada em público, ou acabar nas colônias, juntamente das viúvas, adúlteras, homossexuais e feministas, condenadas a trabalhar em lugares onde os níveis de radiação são fatais.

 

Embora tenha sido escrito há mais de 30 anos, o romance permanece tão atual quanto na data de sua publicação. Nos EUA, a eleição do presidente Donald Trump trouxe de volta o fantasma do totalitarismo, reacendendo os debates em torno do livro e, por consequência, em torno dos direitos das mulheres. Também no Brasil, o fortalecimento dos discursos conservadores e fundamentalistas tem se mostrado preocupante, o que faz de O conto da aia uma leitura significativa e altamente recomendável. Vale lembrar que foi aprovada recentemente pela Câmara dos Deputados uma proposta de emenda à Constituição (PEC 181), que poderá proibir todas as formas de aborto no Brasil, inclusive em casos de estupro ou risco de morte para a gestante.

“Eu acredito que as pessoas vão, de fato, fazer as coisas que dizem que vão fazer, se tiverem a chance. Então a minha questão para mim mesma foi: se os EUA tivesse uma ditadura, que tipo de ditadura ela seria?”

 

Margaret Atwood em entrevista a Madeleine Crum (BookCon 2017)

Particularmente, não posso dizer que gostei da leitura, pois essa não é a palavra exata para definir minhas impressões. O conto da aia é um livro doloroso e desconfortável de se ler, por muitos motivos. Em primeiro lugar, porque a dor da personagem é tão opressora que não há como não se sentir afetado por ela. E em segundo – o que talvez tenha sido o motivo mais forte do incômodo – porque a leitura deixa uma forte sensação de que “isso pode acontecer a qualquer momento”. A impressão deriva de um recurso utilizado com maestria pela autora, que é o de trazer acontecimentos históricos da realidade para a ficção, dando-lhes uma nova cara, sem mexer na essência do que representam. Um exemplo claro está nas roupas das personagens, diferenciadas por cor segundo a classe à qual pertencem; o que nos remete de imediato às burcas utilizadas pelas muçulmanas, ou à época do nazismo, quando muitos grupos de pessoas (tais como homossexuais, Judeus, e Testemunhas de Jeová) eram obrigados a usar marcas distintivas em suas vestimentas.

“Eu peguei exemplos de todo o mundo.  Se você voltar atrás na história, talvez 100 anos, você vai encontrar coisas muito semelhantes [...] essas são coisas que já aconteceram, e não há nenhuma regra que diga que as coisas vão continuar melhorando. Às vezes elas retrocedem. Elas pioram”

 

Margaret Atwood em entrevista a Patty Satalia (Conversations from Penn State)

O sentimento que permanece ao fim do livro é o de medo, pois a realidade que nos cerca é exatamente a mesma que precedeu o golpe ocorrido na obra. Terminada a leitura, somos tomados por uma percepção do quão frágil é o mundo tal qual o conhecemos e do quanto ainda precisamos lutar para garantir que o futuro não seja tão terrível quanto no livro. O conto da aia é um grito de alerta para quem subestima o valor das liberdades individuais e para quem se acomoda ou se torna conivente com os abusos do poder. É uma obra que não deixa nada a desejar em comparação com outras distopias clássicas na literatura e que preza por trazer uma perspectiva feminina do que seria um mundo distópico.

 

 

A autora

 

“Em um regime totalitário, eu seria imediatamente morta, pois eles atacam primeiro os escritores e artistas, eles querem se livrar das vozes independentes”

 

 

Margaret Atwood nasceu em Ottawa (Canadá), em 18 de novembro de 1939: o ano em que começou a Segunda Guerra Mundial – cujos acontecimentos acabaram refletidos em muitas de suas obras.

 

Atwood começou a escrever profissionalmente quando tinha 16 anos e desde então acumulou inúmeros prêmios literários internacionais, tendo escrito mais de 40 livros, dentre: poesia, contos, literatura infanto-juvenil, não-ficção e 14 romances; traduzidos para mais de 30 idiomas.

 

Em 2014, foi a primeira escritora convidada a fazer parte de um projeto chamado Biblioteca do Futuro. Nele, 100 autores escreverão para um acervo que só será revelado em 2114.

 

 

Referências

 

 

Entrevista com Madeleine Crum (BookCon 2017). The Handmaid’s Tale: Margaret Atwood and showrunner Bruce Miller (full panel) | BookCon 2017.

 

Entrevista com Patty Satalia (Conversations from Penn State). A Conversation with Margaret Atwood.

 

HELENA, Ligia. The Handmaid’s Tale: motivos para ver a série vencedora do Emmy. 06 de outubro de 2017.

 

MARAFON, Renato. ‘The Handmaid’s Tale’ será exibida no Brasil pela Paramount Channel. 18 de setembro de 2017.

 

RODRIGUES, Maria Fernanda. Margaret Atwood ganha Prêmio da Paz e fala sobre feminismo, abuso sexual e ‘O Conto da Aia’, em Frankfurt. 14 de outubro de 2017.

 

TORRES, Bolívar. Margaret Atwood: 'Escritores homens são levados mais a sério’. 25 de março de 2017.

Please reload

Siga
  • Facebook - Black Circle
  • Pinterest - Black Circle
  • Google+ - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • wattpad_icon_orange
Inscreva-se para receber atualizações do blog
Inscreva-se para receber atualizações do blog
Destaques

Tapetes trocados

02.11.2019

1/7
Please reload

O Que Estou Lendo
Tags
Arquivo
Please reload

Procurar no blog