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Nêmesis

 

Hoje reencontrei minha nêmesis. Nem me lembro da última vez que nos vimos, mas devíamos ter uns 14, 15 anos. Ela já era linda na época, hoje está estonteante. Mas não é por isso que a considero minha arqui-rival inimiga.

A questão é que passamos muitos anos apaixonadas pelo mesmo garoto, no ensino fundamental. E ele, com toda a maestria e um absoluto desprezo pelos nossos coraçõezinhos pré-adolescentes, nunca escolheu nenhuma de nós. Ficou em cima do muro, iludindo uma e outra, adorando a coisa toda. Ele me amava. Eu sei. Juro que amava. Profundamente, feito um conto de fadas, ou uma novela mexicana. Tenho certeza disso porque certa vez ele me mandou um bilhetinho confessando tudo. Mas ela era linda e eu usava aparelho. Não tinha mesmo como competir.

Quando terminamos o ensino fundamental, achei que nunca mais fosse vê-la - ingenuidade minha, que morava numa cidade pequena, onde todo mundo sabia da vida de todo mundo - mas até que me saí bem em minha missão de evitá-la.

 

E então fui embora, morar em São Paulo. Não para fugir de sua presença, eu não a odiava tanto assim, mas poque achei que seria uma boa ideia mudar de ares por algum tempo. São Paulo: a maior cidade da América Latina, uma das cinco maiores do mundo, com todos os seus milhões de habitantes, onde você não encontra ninguém a não ser que faça um esforço (e mesmo assim corre sérios riscos de não conseguir, especialmente se você marcou de encontrar sua amiga na estação da Sé às 18:00, e não sabe explicar por qual portaria saiu).

Então sim. É claro que eu a encontrei. Em São Paulo. No meio de toda essa gente, no aeroporto. Chegando da minha cidade, que insiste em fazer a gente se trombar. Mesmo dia, mesmo horário, mesmo voo. Achei que eu tinha sido a única a ter chegado à conclusão de que “bom, não tem nada aqui pra mim... e se eu fosse morar em São Paulo?”. Mas não. É óbvio que não.

Eu a vi quando estava saindo do banheiro. Eu, de camiseta velha, jeans que ficam caindo o tempo todo porque o tecido relaxou, tênis e uma mochila preta pouco menor do que eu, que roubei sem nenhum escrúpulo do meu namorado. E lá estava ela. Elegantérrima (e olha que tenho mais medo de superlativos do que do diabo encarnado), saltos finos, maquiagem impecável e uma bolsa de marca. Eu poderia ter jogado minha mochilona nela, poderia ter contado que não uso mais aparelho, ou poderia simplesmente fazer o que os adultos fazem e fingir que não a vi.

Mas acontece que hoje é o dia internacional da mulher e fui tomada de um amor imenso por todas as mulheres que conheço. Por todas as mulheres do mundo. E isso inclui minha nêmesis. Ou talvez eu esteja ficando velha antes da hora - porque pelo menos de onde eu venho, os velhinhos adoram conversar com qualquer pessoa que encontram pela rua; ou porque cresceram em tempos menos solitários, ou porque estão carentes de atenção, ou só mesmo para avisar que continuam vivos. Enfim, não sei o que houve comigo. Só sei que ao vê-la, minha primeira reação foi abrir um sorriso e abraçá-la. Acho que a deixei desconfortável, mas não foi essa a intenção.

“Ah, mas isso é porque ela te faz lembrar de uma época boa”, dirão os psicólogos. Deus, não. Espinhas, medo de crescer, a primeira TPM, "e os namoradinhos?", medo de não crescer, oito a dez aulas de matemática por semana, e um amor não correspondido. Época boa?

Não. Simplesmente senti vontade de abraçá-la. Me emocionei. Diria que estive à beira das lágrimas, mas já usei a novela mexicana lá em cima e não posso exagerar outra vez. Porque percebi, depois de todos esses anos, que não importa o quanto ela seja bonita. E não importa que tenha existido um homenzinho entre nós. Porque nada disso me faz menos bonita e porque nenhuma de nós nunca teve motivo algum para se odiar. Porque podíamos ter sido grandes amigas, podíamos ter nos unido para dizer aquele grande babaca que ele podia ir se f!@#$% e podíamos ter passado os últimos anos nos encontrando nos fins de semana para tomar um café na Paulista. Viajando juntas para visitar nossas famílias em nossa cidade natal. Se ajudando nos apertos financeiros ou emocionais. Mas não. Éramos crianças crescendo num mundo que nos ensinou que tínhamos de ser inimigas.

E então ela se foi. Com um vago “vamos marcar alguma coisa” - o que segundo a minha irmã é só uma outra maneira de dizer “vamos encerrar a conversa fingindo que a gente vai continuar a conversa depois, porém no”.

E lá fiquei, triste e sozinha no aeroporto. Sentindo falta da minha nêmesis. Sentindo falta da amizade que não tivemos.

 

 

NOTA: Esta crônica é uma obra de ficção dedicada à uma grande amiga por quem sempre tive o maior carinho. Como em muitos outros textos literários, alguns elementos partem da realidade, mas há uma boa dose de imaginação envolvida no processo criativo e isso muda tudo.

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