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O cara do prédio da frente

 

O cara do prédio da frente só pode ser um escritor. Sei disso porque gosto de observá-lo pela janela, feito aquele fotógrafo do filme do Hitchcock.

 

Janelas são coisas interessantíssimas. São poéticas, simbólicas, muito úteis para quem tem a cabeça cheia de pensamentos claustrofóbicos e às vezes entra em pânico quando sufoca debaixo deles. Muito úteis para quem perde o sono às 03:30 da manhã e começa a xingar os passarinhos que já estão cantando e depois fica com dó deles, porque, coitados... só estão confusos com as luzes da cidade.

 

É aí que entram as janelas. Quando depois de rolar na cama por quase uma hora, ir ao banheiro, tomar um copo d’água, tentar meditar e contar carneirinhos, dar um Google na diferença entre carneiros e cordeiros só pra descobrir que um é filhote do outro, desenvolver meia dúzia de teorias para explicar por que a rinite não te ataca quando você dorme, mas vira o demônio no instante em que você acorda; quando depois de tudo, você finalmente entrega os pontos e se levanta... é aí que entram as janelas.

 

Minha irmã diz que, segundo a medicina oriental, devemos assistir ao nascer do sol para que possamos ter mais energia durante o dia, mas imagino que os doutores do oriente teriam outra opinião se me vissem arrastando meu cadáver sonolento depois do almoço, quando invento de ver o sol nascer, ou quando, sem inventar nada, sou tirada rudemente da cama por minha cabeça inquieta. Encosto a testa no vidro da janela, apertando minha caneca de café entre as mãos, e começo a observar o exterior. As luzes que confundem os passarinhos até que são bonitas. O paisagista do prédio da frente fez um bom trabalho com os jardins. Não dá para ver uma estrela em São Paulo, nem umazinha.

 

Mas é o cara do prédio da frente que, como sempre, me chama a atenção. Somos cúmplices, ele e eu. O edifício tem 28 andares – eu contei. Ele mora no sétimo e de todas as janelas que vejo à minha frente, a dele é a única iluminada.

 

O cara está ali parado há uns bons minutos, às 03:30 da manhã. Deve ter pensamentos engenhosos, uma mente afiada, talvez seja um matemático excepcional realizando cálculos complexos; pode ser que seja um ornitólogo estudando o comportamento atípico dos passarinhos paulistanos; ou talvez só esteja absorvendo a energia do sol nascente. Mas eu acredito, com toda a convicção, que o cara do prédio da frente é um escritor.

 

Ele está sempre ali, sempre sozinho, sempre em horários curiosos. Já o vi trabalhando muito concentrado, a mesa dele fica de frente para a janela, como a minha. Penso que poderíamos ser grandes amigos, talvez colegas de apartamento, talvez amantes. Viveríamos em sintonia, atravessaríamos madrugadas inteiras escrevendo juntos, trocando ideias inteligentíssimas, contribuindo um com o outro. Não trabalharíamos, é claro. Frequentaríamos museus, mostras de cinema independente, vez ou outra iríamos juntos para a avenida Paulista, protestar pelos mesmos ideais. Dormiríamos abraçados, muito próximos, depois do almoço, e acordaríamos animados para passar a noite em claro, só nós dois e uma boa garrafa de vinho.

 

Ou talvez não. Talvez ele acordasse numa hora e eu em outra. Talvez ele desse palpite demais nos meus textos, e eu nem gostasse muito dos dele. Talvez ele gostasse de arte clássica e eu de arte moderna, talvez nenhum de nós dois gostasse do cinema argentino. Talvez ele não concordasse em participar de todas as manifestações feministas e talvez brigássemos por isso. Eu o chamaria de machista, misógino, discutiríamos aos gritos e depois dormiríamos brigados, um dos dois no sofá, o outro com a garrafa de vinho.

 

Talvez nossa melhor relação seja mesmo essa. Ele de lá, fazendo o que quer que seja. Eu de cá, escrevendo sobre nós dois, sem nunca saber o que realmente temos em comum.

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