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O trabalho Recanto da Prosa de Aline Caixeta Rodrigues está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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Carta para Ms. Angelou

 

 

 

Prezada Ms. Angelou, 

 

Seu livro acabou de me cair em mãos, mas ainda não o abri, daí a razão de eu não me sentir à vontade para te chamar de Maya. Me parece íntimo demais. O motivo pelo qual ainda não abri seu livro é que sinto um pouco de medo. Sei que você escreveu umas coisas muito doídas ali e não sei se estou pronta para lê-las. Me sinto muito, muito frágil, hoje. Queria estar deitada, encolhida numa bola, sozinha no escuro e no silêncio, sem fazer nenhum barulho, como se assim pudesse, pelo menos por algum tempo, desaparecer. Suspender um pouco a vida para respirar fundo e contar até dez.

 

Te escrevo pois tenho um pergunta: De onde você tirou tanta força para se levantar, por tantas e tantas vezes? Como conseguiu? A vida me assusta, sabe? Me assusta muito. E tenho vergonha de confessar isso a você, que com muitos motivos a mais para ter medo, sempre conseguiu se manter firme. Sou fraca, Ms. Angelou. E é por isso que te escrevo. Porque preciso da sua ajuda. E enquanto escrevo, só consigo pensar que você não tem nenhuma razão para me ajudar. Imagino o seu possível desprezo pela minha fraqueza, mas, por favor, não me vire a cara. Mesmo que não seja sua obrigação, mesmo que não me tenha simpatia, por favor, me ajude. Preciso da sua força, Ms. Angelou. Só um pouquinho dela.

 

As coisas não vão muito bem por aqui. Há muito ódio nas ruas, há muito ódio nas casas, há ódio em todos os lugares onde existem dois ou mais reunidos, e não acho que o plano era pra ser esse. As pessoas estão infelizes, procurando culpados, trocando ofensas gratuitas e fazendo ameaças. Muitos querem armas, e até onde sei, armas só servem a uma única função. Penso em quem posso perder no caminho. Penso que posso acabar morta nesse caminho. Sei que sempre houve gente assim, mas nunca tinha visto tão de perto. E nunca tinha visto multidões aplaudindo, de pé, palavras carregadas de veneno. Nunca tinha visto uma figura pública, num cargo de poder, idolatrada por semear o ódio. Apenas em filmes, documentários sobre atrocidades inomináveis que muita gente ainda viva testemunhou a menos de um século. Não imaginei que viveria para ver algo assim de perto. Não dentro de tão pouco tempo. Sei que você viveu num mundo ainda pior do que esse, então, por favor, me diga: Como foi capaz de manter a sanidade? Como conseguiu manter alguma fé nas pessoas? Alguma esperança?

 

Veja bem, sou uma pessimista. Acho que sempre fui. Fico tentando mudar, tentando entender, mas dificilmente consigo, e isso é horrível. Faz de mim um mau agouro, uma presença que drena a felicidade das pessoas ao meu redor. Existe um lado bom, acho, pois quase sempre tenho um plano B, um sistema de reparação de danos pronto para ser posto em ativa quando necessário. Mas é exaustivo, entende? Se preparar sempre para o pior. E em dias como hoje, quando o cansaço bate forte, a gente se pergunta o que é que vale a pena. A questão, no entanto, é que não quero ser um mau agouro. Quero acreditar nas pessoas, Ms. Angelou, quero acreditar em mim.  E é por isso que, hoje, te escrevo.

 

Com uma gota de esperança,

 

Aline.

 

 

 "Poucas pessoas podem chegar ao fim da vida e afirmar que não viveram só uma, mas várias, infinitas delas. Maya Angelou é um exemplo: atuou como cantora, poeta, jornalista, dançarina, atriz, roteirista, diretora... Presenteou o universo literário com sete autobiografias, três ensaios e diversos livros de poesia. Ao longo de cinquenta anos, protagonizou peças, filmes e produções televisivas, sendo a primeira mulher negra a escrever para uma produção de Hollywood. Recebeu incontáveis prêmios, títulos honorários e homenagens de presidentes americanos. Foi ativista dos direitos civis, lutou ao lado dos líderes sociais Malcolm X e Martin Luther King Jr. e foi amiga íntima do escritor James Baldwin."

 

Revista TAG Curadoria, setembro de 2018

 

 

Quer conhecer um pouco mais sobre Maya Angelou? Então assista ao documentário Still I rise, disponível na Netflix. E só pra dar um gostinho, fique agora com esse poema maravilhoso, traduzido pela Francesca Angiolillo (e publicado na revista TAG Curadoria, setembro de 2018).

 

 

Ainda assim me levanto

 

 

Você pode me inscrever na história

Com as mentiras amargas que contar

Você pode me arrastar no pó,

Ainda assim, como pó, vou me levantar.

 

Minha elegância o perturba?

Por que você afunda no pesar?

Porque eu caminho como se tivesse

Petróleo jorrando na sala de estar.

 

Assim como a lua ou o sol

Com a certeza das ondas do mar

Como se ergue a esperança

Ainda assim, vou me levantar.

 

Você queria me ver abatida?

Cabeça baixa, olhar caído,

Ombros curvados como lágrimas,

Com a alma a gritar enfraquecida?

 

Minha altivez o ofende?

Não leve isso tão a mal

Só porque eu rio como se tivesse

Minas de ouro no quintal.

 

Você pode me fuzilar com palavras

E me retalhar com seu olhar

Pode me matar com seu ódio

Ainda assim, como ar, vou me levantar.

 

Minha sensualidade o agita?

Você, surpreso, se consterna

Ao me ver dançar como se tivesse

Diamantes entre as pernas?

 

Das choças dessa história vergonhosa

Eu me levanto

De um passado que se ancora doloroso

Eu me levanto

Sou um oceano negro, vasto e irrequieto

Indo e vindo contra as marés me elevo.

 

Esquecendo noites de terror e medo

Eu me levanto

Na luz nunca tão clara da manhã bem cedo

Eu me levanto

Trazendo os dons dos meus antepassados

Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos

Eu me levanto

Eu me levanto

Eu me levanto.

 

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