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A menina que parou o trânsito

Na última terça-feira, dia 12 de março, realizamos nossa terceira Oficina de Literatura para Crianças, na Biblioteca Paulo Duarte. Dessa vez, tivemos o prazer de receber uma turminha de 15 crianças da creche Lydia Carrano, com a qual passamos uma tarde deliciosa.

 

E o livro da vez foi A menina que parou o trânsito, do querido Fabrício Valério, que topou uma prosa com a gente sobre o seu trabalho. A seguir, você verá um pouquinho do que foi a nossa oficina e uma entrevista com o autor.

 

 

Sobre a oficina

 

Nossa tarde começou com uma breve conversa sobre como são as ruas onde moramos. Há mais árvores ou prédios por lá? Mais pessoas ou carros nas ruas? Há coisas legais para se fazer por perto? Lugares bonitos para se ver?

 

Então, pensando em tudo isso, fizemos uma leitura interativa e muito divertida do livro A menina que parou o trânsito; cantamos juntos a cantiga "Se essa rua fosse minha" e, por fim, desenhamos os lugares onde iríamos viver se essas ruas fossem nossas.

 

O resultado foi uma cidade com ruas cheias de bichos da selva circulando livremente pelas vias, parques de diversões, piscinas de bolinhas gigantes e padarias cheias de doces! (Mas acredite se quiser, a turma estava tão afiada que até se lembrou da importância de escovar os dentes depois das gostosuras).

 

Veja a seguir algumas fotos da oficina:

 

 

Entrevista com o autor

 

Recanto da Prosa: De onde surgiu A menina que parou o trânsito? Como foi o processo de concepção e produção do livro?

 

Fabrício: Surgiu da observação de crianças brincando nas ruas da Barra Funda, um tradicional bairro paulistano. Durante o dia, elas ficavam recolhidas ou na escola, já que o lugar é essencialmente comercial (com especial destaque para oficinas mecânicas e funilarias). Mas, à noite, quando o movimento de carros cessava e as lojas fechavam, elas tomavam as ruas. Para mim, era um evento estranho, já que é difícil ver criança brincando fora de casa depois das 18h, especialmente no centro de São Paulo, especialmente no meio da rua. E isso só ocorria porque o bairro ficava muito vazio durante à noite. Muito mesmo. Hoje não está mais assim. A especulação imobiliária está trabalhando forte por ali.  

 

O processo de concepção foi interessante, já que escrevi o texto quase todo dentro do ônibus. Foi algo pouco planejado. Surgiu. Simplesmente redigi um conto acumulativo no celular. Via mais como uma anotação. Depois, mostrei o texto para minha companheira e para uma colega editora e elas acharam que dava samba. Aí, comecei a burilar o escrito, fazer relações com outros textos (especialmente dois poemas do Drummond, "No meio do caminho" e "Quadrilha").

 

O fato de ser um conto acumulativo – coisa que eu amo – tem a ver com esse desejo da cidade de acumular e empilhar coisas. Tudo é excessivo. Carros, gente, barulho, poluição... tudo é demais. E a gente vê pouco conto acumulativo num ambiente urbano, né?

 

Quanto à produção física do livro, a única “exigência” era que ele tivesse o formato paisagem, que a meu ver abraça melhor o cenário citadino. O resto ficou nas mãos da Bruna Assis Brasil, que fez as ilustrações maravilhosas e ajudou a contar visualmente a história.

 

Recanto da Prosa: Ao ler A menina que parou o trânsito, tivemos uma forte sensação de que se trata de uma história sobre resistência. O que você tem a dizer acerca do tema do livro?

 

Fabrício: Sim, é pura resistência infantil. E aí, nesse sentido, uma grande inspiração veio de um fato ocorrido em Amsterdã na década de 1970, quando crianças bloquearam vias do então bairro proletário De Pjpe, reivindicando espaços para brincar. O vídeo que conta essa história, e até hoje não sei como e por que chegou até mim, é simplesmente uma aula (ou uma lição, depende do ponto de vista). Mostra que as crianças podem e têm o direito de se organizar e se manifestar. E que devem ser ouvidas. Por adultos e por quem quer que seja.

 

(Crianças do bairro De Pijp lutam por uma rua sem carros, em 1972)

 

Basta dar uma volta na cidade e ver que crianças e idosos não estão na conta de quem pensa a cidade, se é que uma cidade como São Paulo é pensada ou se deixa ser pensada. Já viu a dificuldade que um idoso ou idosa tem para atravessar uma rua? Eu trabalho próximo a uma zona hospitalar da cidade e cenas de velhos tentando chegar na outra calçada são muito comuns. Quem está dentro dos automóveis, dos ônibus ou nas motocicletas não consegue ver, e se vê, entende aquilo como um obstáculo, com uma pedra no meio do caminho. É certo que a saída para uma vida melhor numa grande cidade está em projetá-la TAMBÉM para velhos e crianças.

 

Recanto da Prosa: Na oficina, fizemos um exercício de imaginar o que seria uma rua ideal. Na nossa rua, haveria quadras, parquinhos, muitos animais e uma grande piscina de bolinhas. Para você, o que seria uma rua ideal?

 

Fabrício: A rua ideal é aquela onde todos estão considerados. A rua tem que ser um organismo vivo, uma artéria (vá lá, imagem é batida mas serve) por onde o sangue, a vida, possa correr (correr aqui no sentido de ir adiante). Me diga: por que está naturalizada a ocupação do espaço público pelo carro? Por que naquele lugar onde o carro estacionou não podia haver mais calçada ou um canteiro de flores? Na minha rua, na rua da gente, teria mais vida.

 

Recanto da Prosa: Algumas pessoas acreditam que escrever para crianças é mais fácil do que escrever para adultos. O que você pensa a respeito?

 

Fabrício: É relativo. Há quem se sinta mais à vontade escrevendo para adulto. Há quem se sinta mais à vontade escrevendo para criança. Toda escrita é difícil na medida em que demanda uma consciência muito grande do ato de escrever. Um ato que exige idas e vindas. Leituras e releituras. Pede uma autocrítica constante. No limite, leva o sujeito à loucura. No caso específico da literatura infantil, o autor lida com um público definido ou relativamente definido. Escreve-se com um leitor na cabeça. E se ele ou ela não faz isso, não escreve com a criança em mente, o editor possivelmente vai fazer com que ele ou ela o faça. Nesse diálogo será considerada a temática (se está adequado ao público leitor), a linguagem (se as palavras estão dentro do que o pequeno leitor espera ou pode enfrentar) e a estrutura (se a arquitetura do texto permite uma fruição estimulante e sagaz). São bem-sucedidos os escritores e escritoras que, para além do domínio técnico, escrevem respeitando a inteligência das crianças, sem estereotipá-las.

 

Recanto da Prosa: Quais são os seus planos futuros? Podemos esperar outros livros infantis?

 

Fabrício: Tenho textos. Entreguei para alguns editores. Vamos ver.

 

 

 "Fabrício Valério nasceu em São Paulo em 1981. Formado em Jornalismo pela PUC-SP, é editor e tradutor. Tem horror a dirigir. Não lhe parece coisa inventada para ser humano fazer. Prefere o transporte público, onde pode ler e ouvir a conversa dos outros. Escreve um monte de histórias na cabeça enquanto faz caminhadas, mas é preguiçoso demais e nunca põe nada no papel. Sua mulher deu-lhe um ultimato e, por causa disso, nasceu A menina que parou o trânsito." 

  

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