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Conferência com João Silvério Trevisan

No dia 28 de outubro, tivemos o prazer de assistir à 4ª Conferência Sobre Escrita do Instituto Vera Cruz, intitulada "As funções da escrita e os tempos de ódio", com o autor convidado João Silvério Trevisan.

 

 

O escritor começou a conferência discorrendo sobre a literatura enquanto fazer artístico, que - partindo de algo tão prosaico quanto a palavra - consegue transfigurar a linguagem, carregando-a de potência e enchendo-a de expressão. Para ele, a função da escrita é a própria escrita, a "busca do nosso mistério", a investigação profunda do eu, em toda a sua pluralidade; e a subsequente tentativa de se traduzir esse mistério em palavras. "Toda escrita é um mergulho profundo na subjetividade. Não existe literatura fora dessa condição".

 

Em sequência, o convidado citou um texto do poeta chinês Han Yu, que já no século VIII chegou à conclusão de que a literatura partia sempre de um estado de desequilíbrio:

 

“Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita, elas ressoam. A água está silenciosa: o ar a move, e ela ressoa. As ondas mugem: é que algo as oprime. A cascata se precipita: é porque falta-lhe solo. O lago ferve: algo o aquece. Os metais e as pedras são mudos, mas ressoam se algo os golpeia. Assim também o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai de sua boca em forma de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio. A palavra é o mais perfeito dos sons humanos; a literatura, por sua vez, é a mais perfeita forma de palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem."

 

Para Trevisan, a literatura sustenta um paradoxo: ela é ao mesmo tempo uma busca de equilíbrio e um fator de desequilíbrio. "O ato de escrever se impõe num mundo de paradoxos que começam na luta travada com a própria palavra". 

 

Mas a luta não para por aí. Antes de tudo, o autor defende que é preciso haver um verdadeiro compromisso com a escrita. E não existem manuais. "Não existem mandamentos, cada autor é uma literatura. Também não existe musa [...] o que existe é uma intuição. Mas toda obra precisa de um projeto [...] e quem quer ser escritor, precisa assumir o compromisso de escrever todos os dias".

 

Por si só, tal compromisso já seria bastante trabalhoso, mas ainda se é preciso cavar um pouco mais. Além dessa luta "profissional", existe uma outra, muito maior e mais subjetiva, que exige do escritor a coragem de encarar seus demônios e trabalhar com eles. "Foi o que eu tive de fazer para escrever 'Pai, Pai'. [...] As grandes verdades que estamos procurando dentro de nós mesmos estão nos nossos fantasmas. [...] É claro que os nossos mistérios não são feitos apenas deles, mas de um conjunto de outros [no sentido de alteridades] que vivem dentro de nós: é desse caos interior que precisamos tirar os elementos para criar uma obra e jogá-la para o mundo".

 

Concluído o primeiro momento da conversa (sobre as funções da escrita), o convidado passou à segunda parte do tema da conferência, introduzindo a seguinte pergunta: mas o que são, afinal, os tempos de ódio?

 

Na concepção de Trevisan, o ódio é a negação do outro e a busca da aniquilação dessa alteridade. "É um sistema de competição e ressentimento; que pode ser organizado, como numa ditadura, ou desorganizado, como este em que estamos vivendo. [...] O ódio do outro é o medo de se confrontar com os próprios fantasmas". 

 

Não é fácil viver em tempos de ódio. Mas longe de se desesperar, o escritor afirmou que são contextos como esses que acirram a urgência da escrita, afiam a nossa capacidade de inventar e nos dão o privilégio de conhecer mais verdadeiramente a realidade que nos cerca. "É um momento extraordinário para a resistência. O que o ódio destrói, o escritor cria. É preciso criar incessantemente. [...] Não é hora de nos desesperarmos. O que criamos não deixou raízes? Não acreditamos em nós mesmos? [...] Eu sempre falo na resistência dos vaga-lumes: o que eles fazem quando escurece? Eles voam".

 

 

Em oportuno, cabe-nos mencionar que a referência aos vaga-lumes inspirou neste ano a produção de uma coletânea publicada pela editora NÓS, com organização de Cristina Judar e Alexandre Rabelo, intitulada "A resistência dos vaga-lumes: antologia brasileira escrita por LGBTQs". Na introdução do livro, Trevisan formulou com muita assertividade a provocação retomada durante a conferência:

 

 

Eu pergunto: então é assim tão fácil? De repente, a resistência que celebramos com tanta convicção, por tantos anos, pareceu um reles oba-oba de gente que brincava de ter direitos, no buteko do Facebook. [...] Fiquei perplexo ao me dar conta de como podemos ceder tão facilmente. [...] Mas NÃO e NÃO. Os próximos quatro anos podem se tornar um período profícuo de reaprendizado, de reavaliação e, sobretudo, de redobrada criatividade a partir das nossas convicções. [...] Descobriremos então uma verdade simples e ao mesmo tempo singular: vaga-lumes brilham tanto mais quanto mais escuro estiver ao seu redor". [ A resistência dos vaga-lumes, p. 13]

 

Ainda sobre o tema, o convidado afirmou que todos os tempos de ódio são autodestrutivos (pois procuram exterminar os outros que vivem em nós); e insistiu na ideia de que precisamos ser profetas contemporâneos. "Escrever como um profeta não é falar do futuro. É falar do presente [...] é apresentar o seu tempo com as cores que ele tem, mesmo que essas cores sejam incompreensíveis para os seus contemporâneos". 

 

Por fim, na conclusão da conferência, Trevisan falou sobre alguns de seus livros, dentre os quais, "Devassos no Paraíso", "Ana em Veneza" e "O livro do avesso"; além de ter relatado diversas experiências de censura e repressão; tanto por suas posições políticas, quanto por suas escolhas artísticas e sua homossexualidade. Sem medo (e de modo inspirador), o convidado expôs situações particulares e denunciou injustiças e perseguições, sempre com a convicção de que não deixaria ninguém barrar sua voz. 

 

"Não há nada mais doloroso do que sofrer as dores daquilo que as pessoas não suportam em si mesmas. [...] Mas não abro mão das minhas convicções e lutas. [...] Escrevo porque tenho um compromisso com a expressão do meu mistério e com quem quer compartilhar dele. [...] Quero viver do jeito que eu sou, com todo o direito de ser quem eu sou. E essa liberdade que eu quero para a minha vida se reflete na minha literatura."

 

João Silvério Trevisan é escritor, ensaísta e cineasta. Seu projeto atual, a trilogia da dor, revê sua longa experiência de forma confessional, como já vemos no primeiro romance recentemente lançado, "Pai, Pai". Trevisan escreveu outras obras importantes, como "Ana em Veneza", "Vagas notícias de Melinha Marchiotti" e "Em nome do desejo", além de ser autor do clássico ensaio "Devassos no Paraíso", um marco sobre a história da homossexualidade no Brasil.

 

Conhecido também por sua militância, João foi um dos fundadores históricos do Grupo Somos e do jornal "O Lampião da Esquina", durante a ditadura. [A resistência dos vaga-lumes, p. 14]

 

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