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O trabalho Recanto da Prosa de Aline Caixeta Rodrigues está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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Mesa para três

 

A árvore iria pegar fogo. Se haveria sol ou chuva, se a colheita seria boa ou se as vacas dariam leite, ninguém sabia. Mas uma coisa era tão certa quanto a morte: ano após ano, a árvore iria pegar fogo.

 

Meu avô costumava ser o melhor contador de casos em toda a região. Baixinho, forte, gordo e falador, tinha uns olhos verdes, que herdou do pai ausente, e uma pele morena, de quem plantava para sobreviver. Vovó diz que só precisava ir ao mercado para comprar açúcar, sal e querosene. No resto dava-se um jeito.

 

Embora não tivesse ido à escola, e ainda que gastasse uns bons minutos desenhando sempre que precisava assinar seu nome, vovô causava espanto em se tratando de sua habilidade com pessoas e palavras. Num tempo e num lugar em que só havia uma pessoa num raio de quilômetros a possuir uma televisão – o dono do mercado – a novela das nove perdia espaço para a casa dos meus avós. Lá, histórias muito mais emocionantes se desenrolavam no chão de terra batida, sob a meia-luz das lâmpadas de querosene.

 

E poucas coisas na vida eram tão boas quanto ouvir seus "causos" junto aos primos e vizinhos. Minha memória do arraial se resume a uma única estrada, com casinhas esparramadas a cada 200 ou 300 metros, daquelas com jeito de que o morador construiu com as próprias mãos. E no meio da estrada, além de muitas pedras e pastos, havia um morro. E no alto do morro, solitária, havia uma árvore. À primeira vista, qualquer pessoa diria que é uma árvore comum. E deve ser mesmo. Mas para mim, ela será sempre a árvore que pegava fogo.

 

No dia em que vovô contou aquela história, não havia ninguém da costumeira vizinhança por ali. Vovó devia estar presente, pois mais tarde precisou me botar na cama para tentar me fazer dormir, mas enquanto ele falava, acho que só existíamos nós dois no mundo todo.

 

Sou incapaz de contar a história do modo como vovô contou. Ele deve ter gastado mais de uma hora falando e eu não consigo escrever coisa alguma para além de uma dúzia de linhas. A verdade é que só me recordo com clareza de uma única cena, sem prólogo nem epílogo. A coisa toda se condensou ali.

 

Acontece que a árvore do morro era amaldiçoada. Vovô deve ter me explicado o motivo, mas não me lembro. Invento que alguém cometeu algum crime hediondo sob seus galhos e depois se matou num dia dedicado a Nosso Senhor. Foi isso mesmo. E para que ninguém se esquecesse da tragédia, todos os anos, na noite do crime, a árvore pegava fogo. Os últimos raios de sol começavam o incêndio, e apenas o primeiro canto do galo fazia com que as chamas se apagassem.

 

Mas a história de vovô terminava de modo muito pessoal. Acontece que ele era ousado. E certo dia, depois do cantar do galo, caminhou com a aurora até a árvore do morro. E essa é a única cena de que realmente me lembro. Nítida e perfeita. A cena que tornou inferiores todas as histórias de terror que vieram depois. Pois ao chegar ao alto do morro, vovô se deparou com uma larga mesa, posta sob a árvore, forrada por uma toalha xadrez sobre a qual descansavam talheres de prata. Os convidados usavam guardanapos de linho branco ao redor do pescoço e, ignorando a prataria, comiam uma novilha gorda, ainda viva. A melhor da criação. O mais estranho, contudo, era que os convidados não passavam de três grandes urubus e que o anfitrião – um homem macilento, com sangue nos olhos e nas mãos – limitava-se a observá-los, sentado num galho queimado, como se aguardasse.

 

Diante do horror, vovô precisou cair de imediato num sono profundo. E ao acordar, com a pele do rosto pinicando por causa da grama, não viu nenhum sinal da mesa, do homem, ou dos urubus. A novilha, de fato, desapareceu sem deixar vestígios. Restaram apenas a árvore, as cinzas da noite anterior e um cheiro de coisa podre no ar.

 

Jamais consegui passar por aquela estrada outra vez sem rezar um Pai-Nosso e três Ave-Marias, conforme vovó ensinou. E quando a árvore chegava perto, eu virava o rosto ou fechava os olhos, correndo depois de lhe dar as costas.

 

Mas acontece que herdei muita coisa de vovô: a falha nos dentes da frente, uma vaca preta com uma pinta branca na testa, o gosto pelas palavras e uma imprudente atração pelo sobrenatural. Pois é claro que eu espiava por cima do ombro para mostrar à árvore que eu não tinha medo dela.

 

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