A METODOLOGIA DO MACROPLANEJAMENTO NA ESCRITA DO ROMANCE LEGADO DE BARRO II:
Processo criativo e ferramentas de organização
A METODOLOGIA DO MACROPLANEJAMENTO NA ESCRITA DO ROMANCE LEGADO DE BARRO II:
Processo criativo e ferramentas de organização
O presente trabalho tem como objetivo compartilhar e discutir a metodologia de escrita criativa adotada na elaboração do segundo volume do romance Legado de Barro (ainda em processo de produção), visando promover uma reflexão crítica sobre os processos de composição de narrativas longas e incentivar o debate acadêmico em torno das rotinas, das ferramentas e da pragmática do fazer literário. A proposta justifica-se pela necessidade de desmistificar a concepção romântica e midiática da criatividade como um processo essencialmente selvagem, caótico ou intuitivo, que frequentemente rejeita dinâmicas de trabalho mais metódicas. Reconhecendo que gêneros breves como a poesia, a crônica e o conto podem derivar de iluminações espontâneas, defende-se que o romance exige um método diferenciado e que abordagens estruturadas não engessam a escrita nem prejudicam a qualidade estética do texto final, mas constituem salvaguardas para prevenir contradições e o abandono de projetos. A metodologia fundamenta-se no conceito de macroplanejadores, formulado por Zadie Smith, e na metáfora do projeto literário como um GPS, teorizada pelo escritor, produtor de conteúdo digital e professor de escrita criativa Tiago Novaes, segundo a qual se estabelece uma rota clara com ponto de partida e destino, permitindo reajustes contínuos sem perder o rumo central. Formalmente, o planejamento do romance estrutura-se a partir do método do Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, conforme apresentado no livro Escrever ficção: um manual de criação literária, composto pela tríade de sinopse, resumo e resumo expandido. No cotidiano, o processo é operacionalizado por meio de um ecossistema digital articulado em três frentes complementares: o Projeto, no qual se aplica a dinâmica “planejado x redigido”, substituindo a meta pelo resumo do capítulo concluído (para evitar incongruências no enredo e eliminar a necessidade de releituras exaustivas a cada pausa); a Captura de Insights, realizada via aplicativos integrados ao acervo digital, atendendo a demandas práticas de mobilidade; e o Diário de Criação, que atua como um laboratório de reflexão paralela para investigar nós narrativos, superar o temor da tela em branco, manter o trabalho inconsciente ativo e converter vivências e aportes teóricos em matéria-prima ficcional. Os resultados alcançados até o momento demonstram a eficácia do sistema, comprovada pela conclusão do primeiro volume do Legado de Barro, bem como pelo atual progresso do segundo volume, evidenciando que a aplicação do macroplanejamento auxilia na manutenção do foco no núcleo dramático, impedindo dispersões por conflitos secundários e evitando os bloqueios de escrita. A atualização constante do planejado pelo redigido proporciona agilidade no retorno ao texto após intervalos, sabendo-se exatamente de onde partir e para onde ir, eliminando contradições na trama e conferindo segurança, autonomia, consistência e flexibilidade ao fluxo criativo. Conclui-se que o rigor metodológico não limita a criação artística, mas atua como um suporte para a produção de narrativas longas complexas.
ASSIS BRASIL, Luiz Antonio. Escrever ficção: um manual de criação literária. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
BRAIT, Beth. A personagem. 9ª edição. São Paulo: Contexto, 2017.
DOMÍNGUEZ, N. Criatividade e psicose têm raízes genéticas comuns. El País, 06/2015. Disponível em: <https://bit.ly/criatividade_e_psicose>.
FERRANTE, Elena. As margens e o ditado: sobre os prazeres de ler e escrever. Trad. Marcello Lino. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023.
FREUD, Sigmund. Arte, literatura e os artistas. Tradução Ernani Chaves. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos. Trad. Pedro Heliodoro. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
HAMMOND, C. Mito ou verdade: transtornos mentais melhoram a criatividade? BBC Future. Publicação: 03/03/2016. Disponível em: <https://bit.ly/mito-ou-verdade-transtornos-mentais-melhoram-a-criatividade>.
JAMISON, K. R. Touched with fire: manic-depressive illness and the artistic temperament. New York: Free Press Paperbacks, 1993.
KING, S. Sobre a escrita. Trad. Michel Teixeira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
MACCABE, J. H. et al. Artistic creativity and risk for schizophrenia, bipolar disorder and unipolar depression: a Swedish population-based case–control study and sib-pair analysis. The British Journal of Psychiatry. 2018, 212, p. 370-376. Disponível em: <doi:10.1192/bjp.2018.23>.
MONTERO, Rosa. A louca da casa. Trad. Paulina Wacht, Ari Roitman. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2016.
MONTERO, Rosa. O perigo de estar lúcida. Trad. Mariana Sanchez. São Paulo: Todavia, 2023.
NOGUEIRA, M., FLEITH, D. Qual é a relação entre criatividade e transtorno mental? Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. 2019, 21(3), p. 317-331. Disponível em: <https://doi.org/10.31505/rbtcc.v21i3.1315>.
PAULSON, S. Unlocking the Unconscious: Exploring the Undiscovered Self. New York Academy of Sciences. 2017, oct. vol. 1406, p. 8-11. Disponível em: <https://doi.org/10.1111/nyas.13506>.
PÉREZ, S. G. P. B. O culto aos mitos sobre as altas habilidades/superdotação. Psicologia Argumento. v. 29(67), p. 513-531, out./dez. 2011. Disponível em: <https://periodicos.pucpr.br/psicologiaargumento/article/view/20413>.
RHODES, M. An Analysis of Creativity. The Phi Delta Kappan. 1961, 42(7), p. 305-310. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/20342603>.
SMITH, Patti. Devoção. Trad. Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
SMITH, Zadie. “Aquela sensação de ofício”. IN: Revera: escritos de criação literária. São Paulo, v. 1, n. 1, 2016. (p. 71-83).
Macroplanejamento; Processo criativo; Metodologia de escrita.