RECANTO DA PROSA

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  • Aline Caixeta Rodrigues

A vida mentirosa dos adultos

Tudo parece estar em ordem, bom dia, até logo, fique à vontade, o que gostaria de beber, poderia abaixar um pouco o volume, obrigada, de nada . Mas existe um véu sombrio que pode cair de uma hora para outra. É uma cegueira repentina, você não sabe mais manter a distância, acaba colidindo. Só algumas pessoas ou todas, após certo patamar, ficavam cegas de raiva? E éramos mais verdadeiros quando enxergávamos tudo nitidamente ou quando os sentimentos mais robustos e densos — o ódio, o amor — nos cegavam?


Quem me conhece sabe o quanto sou fã da Elena Ferrante, dessas de carteirinha, que vai a eventos e faz cursos sobre a obra da autora. Então quando foi anunciada a pré-venda de A vida mentirosa dos adultos, já garanti meu e-book, porque queria tê-lo logo no primeiro dia, sem precisar contar com os Correios. E, é claro, as expectativas estavam nas alturas.


Tenho visto muita gente dizendo que se frustrou com a leitura – mas os comentários sempre trazem comparações com a Tetralogia Napolitana; e bem... não é muito fácil escrever algo que supere aquela narrativa, né? Desde o começo, tentei ler A vida mentirosa dos adultos sem compará-lo com A amiga genial o que é meio impossível, dado que a autora sempre trabalha em torno dos mesmos elementos arquetípicos (vamos voltar a esse assunto depois, mas já adianto que, na minha opinião, isso não é um problema) – e procurei avaliar a qualidade do livro em si.


Dito isso, vamos às minhas observações. Começando pela estrutura, a narrativa é dividida em sete partes, o que provoca uma leitura confortável, pois propicia respiros na história. (Em paralelo, estive lendo um livro de 140 páginas que tem UM parágrafo; o que me dá desespero, por melhor que seja o texto). Além disso, as seções da narrativa marcam pontos de virada na vida da personagem central – Giovanna, ou Gianni – que passa por uma incrível metamorfose do começo ao fim da história; como condiz com o processo natural de sua idade: dos 12 aos 16 anos.


O que primeiro me chamou a atenção nesse quesito foi o quanto a autora conseguiu mergulhar nos pensamentos e sentimentos mais profundos e honestos de uma adolescente; sendo, imagino, uma senhora dos seus 60 anos – dada a maturidade de sua escrita. (Não vou entrar na questão Anita Raja aqui, porque sinceramente não me interessa; a obra sempre há de ser maior e mais relevante do que o/a autor/a). Em resumo: essa voz adolescente de Gianni me convenceu; sem estereótipos, gírias, ou elementos datados. Elena Ferrante consegue enxergar além disso: ela sempre extrai o perene do passageiro.


Eu examinava minhas feições e pensava, esticando o rosto: pronto, era só ter um nariz assim, os olhos assim, as orelhas assim e eu seria perfeita. Eram leves imperfeições que me deixavam melancólica e me enterneciam. [...] E eu sentia um arrebatamento repentino pela minha própria imagem, tanto que, uma vez, cheguei a beijar minha boca justamente enquanto pensava desolada que ninguém jamais me beijaria. [...] Talvez, naquele momento, tenha se rompido algo em alguma parte do meu corpo, talvez eu devesse situar ali o fim da infância. Certamente me senti como um recipiente de pequenos grãos que, de maneira imperceptível, caíam para fora de mim por uma fissura minúscula.


E como sempre, a linguagem da autora é maravilhosa. Rica, bem trabalhada, estruturada com segurança e um estilo próprio, ao mesmo tempo simples e intricado. Acabei de dizer que não falaria de Anita Raja, mas acho indispensável falar de Domenico Starnone, já que muitos ainda defendem que ele seja o autor por trás de Elena Ferrante. Falando francamente, acho impossível. A visão de mundo por trás de todos os livros de Ferrante é feminina. Qualquer homem dotado de sensibilidade e empatia é capaz de compreendê-la, sem dúvida, mas apenas até certo ponto. Tenho amigos extremamente sensíveis que foram capazes de fazer isso e se encantaram por sua obra. Mas por mais sensíveis que sejam, por mais alinhados às questões do feminino (escancaradas na obra), por mais criativos e talentosos enquanto escritores... nenhum deles seria capaz de escrever o que ela escreve.


Não é uma questão de competência literária, mas de um conhecimento profundo das dores e raivas seculares que as mulheres carregam contra o patriarcado. Há camadas na obra de Ferrante que só serão preenchidas pela experiência crua de ser mulher. E não digo isso para diminuir ou censurar a liberdade criativa de qualquer homem que se proponha a escrever por meio de uma focalização feminina. Só levantei a questão porque da primeira vez que li A amiga genial, emendei em sequência A morte do pai, de Karl Ove Knausgard (que também é um tremendo autor) e embora ambos tenham escrito autoficção, e ambos com grande talento, as visões de mundo entre os dois se mostraram gritantemente distintas.


Só que não paro por aí. O estilo de Ferrante e Starnone é diferente. Compare Laços e Dias de abandono para ver. São histórias que dialogam, num trabalho genial a quatro mãos e, sim, com muitos elementos semelhantes – mas há diferenças claras de estilo. Se me perguntarem, digo que Ferrante influenciou Starnone. As marcas características do estilo da autora aparecem com força na obra dela e em menor grau na obra dele. Starnone vai por outro caminho. E quando escreve na voz de uma personagem feminina, ele não me convence (quase, mas não convence); o que falta é justamente essa visão de mundo da qual falei. Ferrante acessa um ódio (sim, a palavra é essa, conheço muitas mulheres que terminaram A amiga genial com vontade de brigar com amigos e cônjuges) incompreensível para os homens – incompreensível mesmo para muitas mulheres, que o sentem sem saber lhe dar forma. São as pequenas e não as grandes coisas do dia-a-dia que nos matam, as que passam absolutamente despercebidas pelo masculino; e que somadas resultam num misto pesado e confuso de sentimentos. Não me entendam mal, não estou pregando o ódio contra os homens. Falo de uma sensação latente, não direcionada a nenhum indivíduo, que diz respeito muito mais a um comportamento histórico de opressão do que ao sujeito-homem em si. Falo de um padrão de funcionamento das sociedades, de uma coletividade patriarcal, e não de um indivíduo.


(Vou tomar licença um minutinho para fazer uma provocação, pegando emprestadas palavras que já vi incontáveis vezes em redes sociais: “eu não sou machista; tenho mãe, filha, esposa – e trato a todas muito bem”. Pois então: não odeio os homens; tenho pai, um namorado gentil, amigos muito queridos, escritores que me inspiram – e trato a todos muito bem. Se você é homem e isso te incomodou, repito: são frases como essas, as pequenas coisas do cotidiano, que nos matam).


Mas voltemos ao tema central deste post. Logo no segundo parágrafo, eu disse que retomaria os arquétipos da obra de Ferrante e começo por citar alguns: as praias, a relação entre mães e filhas, a traição conjugal, a violência nas periferias de Nápoles, as metamorfoses do corpo feminino, as famílias desarticuladas (como todas, não?), os espelhamentos, as aparências e finalmente, a mulher “louca”.


No outro dia vi um post sobre questões recorrentes aos escritores, que trazia a seguinte pergunta: por que quando uma mulher escreve sobre os mesmos temas, ela é repetitiva; mas quando um homem faz o mesmo, diz-se que sua obra tem coerência autoral? São dois pesos e duas medidas. Ando fazendo um curso com o professor Assis Brasil (que, para quem não sabe, é uma grande referência na área de escrita ficcional) e ele sempre diz que todo personagem sólido parte de uma questão essencial intrínseca, incontornável e constante, que quase sempre lhe causa sofrimento. O professor também afirma que a melhor fonte para buscar essa questão do personagem somos nós mesmos, pois assim a narrativa terá consistência e verdade; afinal estaremos trabalhando em cima de algo que é realmente importante para nós. Elena Ferrante retorna sempre às mesmas questões e sempre entrega narrativas verdadeiras. Não seria porque essas são as suas questões essenciais? Seus fantasmas? A constância do que ela precisa falar? Sinceramente não entendo por que isso possa ser um problema.


E por falar em recorrências, mesmo que eu tenha tentado evitar comparações entre A vida mentirosa dos adultos e A amiga genial, foi inevitável traçar um paralelo entre a tia de Gianni – Vittoria – e Lila. Ambas possuem um Enzo em suas vidas, ambas são perigosas, sedutoras, capazes de dominar qualquer ambiente; e parecidas até mesmo no aspecto físico, de magreza e oscilação entre uma terrível beleza e uma terrível feiura. No entanto, achei que há em Lila uma delicadeza ocasional que Vittoria raramente demonstra: ela me passou uma impressão de ser mais “suja”, menos propensa a dissimular sua selvageria – ou ao menos é o que parece, dado que não sabemos ao certo o que Lenu escolheu contar sobre Lila, em comparação à franqueza com que Gianni expõe a tia. E é claro, não há como não perceber o espelhamento de personagens que ocorre entre Lenu-Lila e Gianni-Vittoria; afinal o drama inicial que dispara toda a narrativa, provocando uma sensação de inevitável desastre, é uma sentença proclamada pelo pai de Gianni, que desestabiliza pela primeira vez sua infância perfeita (quase diametralmente oposta à de Lila):


Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia. A frase foi pronunciada à meia-voz, no apartamento que meus pais, recém-casados, compraram no Rione Alto, no topo da Via San Giacomo dei Capri. [...] "Não tem a ver com a adolescência: está ficando a cara de Vittoria". [...] A esta altura, alguém poderia fazer uma objeção: talvez você esteja exagerando, seu pai não disse ao pé da letra: Giovanna é feia. Mas eu passava por um período de grande fragilidade. [...] Por isso, quando ele me comparou a tia Vittoria, foi pior do que se tivesse dito: Giovanna antigamente era bonita, agora ficou feia. O nome Vittoria, na minha casa, soava como o de um ser monstruoso que mancha e infecta os que toca.


Entretanto, por mais que de início Gianni pareça presa à figura da tia, senti que ela vai aos poucos se libertando de sua influência – o que não acontece com Lenu. À medida que cresce, Gianni vai se formando segundo suas próprias concepções de mundo, atravessando a confusão inevitável de sua idade e suas questões: os estudos, a revelação de que os pais são seres humanos falhos, as amizades conturbadas e a descoberta da sexualidade.


Quando fiz minha defesa de que Ferrante é uma mulher, faltou discorrer sobre este elemento central de sua obra – que deixei para explorar mais tarde, dada a sua relevância: o sexo. A maneira como Gianni descobre e explora a sua sexualidade só pode ser concebida por uma mulher (assim como o faz Karl Ove, em relação à sexualidade masculina). O sexo é uma questão dolorosa para as mulheres: a maioria das que conheço iniciou sua vida sexual sentindo grande dor física (quase sempre dissimulada em função do prazer masculino) e muitas carregam traumas que afetam seus relacionamentos por um longo tempo, ou até mesmo por uma vida.


Mas essa não é a dor maior. Sabe as pequenas coisas das quais falei? Existem muitas delas, algumas não tão pequenas, mas quase diárias: o julgamento duro do corpo, enfrentado em grau superior àquele enfrentado pelos homens; o desprezo pelo orgasmo da mulher; a pornografia depreciativa e violenta que nos coloca em um lugar de tremenda humilhação; os casos de pedofilia, muito mais frequentes em meninas do que em meninos; a repressão do corpo, que não pode ser descoberto e tocado de maneira saudável na infância, mas precisa ser exposto na adolescência para agradar o olhar do outro; e, é claro, o medo sempre alerta do estupro. (Já reparou que o maior medo de qualquer homem ao ir para a cadeia é ser estuprado? Pois é: o mundo é essa prisão para quem nasce mulher).


Toda essa dor é mais comum do que parece. E quando as mulheres levantam a voz para denunciar a situação, são taxadas de vitimistas, histéricas, “feminazis”. E se falei de tudo isso, é porque todas essas questões estão presentes em A vida mentirosa dos adultos – essa vida complexa, cheia de máscaras e de coisas varridas para debaixo do tapete. Ferrante escancara tudo com seu olhar clínico para o que está além das aparências, para o que há de mais profundo e inarticulado em nosso inconsciente; com a rara habilidade de nos dar as palavras para explicar aquilo que sempre sentimos, mas nunca conseguimos compreender.


De modo geral, recomendo fortemente a leitura. Mas uma leitura do livro em si, sem comparações. Penso que nenhum/a escritor/a merece o peso de ser obrigado ou obrigada a produzir obras cada vez melhores em relação às anteriores. Talvez Elena Ferrante já tenha nos entregado sua obra-prima na Tetralogia Napolitana. Mas nem por isso, considero que ela não possa continuar a escrever grandes livros; e afirmo que, sem dúvida, continuarei a lê-los.


Enfim. O post ficou beeem maior do que eu esperava – e se você chegou até aqui, eu nem sei como te agradecer. Acabei descumprindo o propósito de uma resenha e desaguei numa reflexão muito pessoal (ou arrisco dizer que coletiva) sobre o feminino. E é óbvio que eu poderia ter “enxugado” o texto ou até mesmo escrito outro mais objetivo, mas não quis fazer isso. Acho impossível falar de Elena Ferrante de outra forma, distanciada e analítica. E é por isso que a indico: porque ela dispara infinitas reflexões e nos faz acessar o mais misterioso que há em nós.


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