RECANTO DA PROSA

Cantinho dedicado à leitura e à troca de ideias entre os amantes da literatura. Sinta-se em casa!

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  • Aline Caixeta Rodrigues

Casei com o tio do pavê



Quer dizer, oficialmente não somos casados, então ainda dá tempo. No outro dia, quando nos perguntaram nosso estado civil pra preencher um cadastro, respondi "solteira" ao mesmo tempo em que ele dizia "união estável". E é claro que a atendente nos olhou com aquele sorriso que você sabe como é. Judicialmente também não é uma união estável (acho). Não assinei nada no cartório e não podemos dividir o plano de saúde. Mas suspeito que num júri, o veredicto seria esse mesmo. Estamos juntos há seis anos, moramos juntos há quase cinco.


Questões judiciais à parte, nossa vida é de casado. Da última vez que viajamos, ele se esqueceu de colocar a escova de dentes na mala (há quanto tempo não faço uma mala?); e dividimos uma no fim de semana, por pura preguiça de ir na farmácia. Conhecemos, brigamos, nos cansamos de brigar e aceitamos cada mania chata um do outro. Ninguém mais se preocupa em fechar a porta pra tomar banho; e nem é pra um daqueles banhos sexys das Bond Girls. (Desculpa pela referência, cresci assistindo à coleção completa do 007 e ainda tenho uma ligeira queda pelo Pierce Brosnan). Em resumo: já chegamos àquele ponto de intimidade que beira o desleixo, mas que é confortável e tranquilo.


A ideia era oficializar as coisas nesse ano. Mas... né? Todo mundo tinha um monte de ideias no começo de 2020. No momento não vejo sentido, não enquanto durar a pandemia. Minha rotina seguiria exatamente como é hoje, e não poderíamos fazer uma festa nem viajar em lua de mel. Daí que... pra quê? Sigo respondendo uma coisa diferente a cada vez que me perguntam. "Casada" no Pão de Açúcar, pra pegar os selos da promoção. "Solteira" pros formulários, porque é o que está escrito na identidade. "Namorando" quando aparece algum sem noção. (Também pode ser "noiva" ou "casada" dependendo do grau de babaquice). "União estável", nunca respondi, mesmo sendo o status que faz mais sentido.


Agora vejam só. É Natal e eu estou fazendo o quê? Sim, aquela sobremesa que não quero nomear - e proponho que seja rebatizada. Já ouvi a piada umas quinze vezes hoje, com pequenas variações, começando no supermercado quando saí para comprar os ingredientes. Esse é o meu namorado/marido/noivo/cidadão estavelmente unido: o tio do pavê. Literalmente. No ano passado, quando ainda podíamos aglomerar, ele contou a-piada-que-ninguém-mais-aguenta à priminha de quatro anos e ela deu gargalhadas.


Quando nos conhecemos, achei que ele estava fingindo. Ninguém poderia ser tão pra cima o tempo todo, fazer piada com insulina (ele é diabético), ou conseguir perdoar tão rápido. Pelo menos ninguém que eu já tivesse conhecido; ou, diga-se de passagem, que conheci depois. Mas o alto astral é genuíno. Ele toma banho cantando. Dirige cantando. Acorda cantando. Já cantou dormindo, juro. E quando me recuso a levantar cedo pra fazer caminhada, ele liga o celular no canal do Mundo Bita e pega o violão pra tocar "Bom dia na fazendinha". Sou possivelmente a única pessoa do planeta que sabe a letra completa sem ter crianças em casa ou trabalhar com buffet infantil. (A piada é que morei alguns anos numa fazenda).


Nossas ideias de humor são tão opostas quanto os polos terrestres. Ou talvez seja mais justo comparar um deles com o Saara. Não sou uma pessoa amarga nem mal-humorada, pelo menos não na maior parte do tempo, como todo mundo. E nem tenho um senso de humor lá muito refinado ou intelectual. Mas passo longe da maior parte dos comediantes de stand-up ou dos filmes do Adam Sandler (o que é um problema, porque meu cônjuge-não-definido parece incapaz de enjoar deles). Certa vez, durante aquele período do mês em que as coisas ganham proporções bizarras e é preciso estocar barras de chocolate para o apocalipse, desabei a chorar no meio de um dos filmes. Era a terceira vez que estávamos assistindo Gente Grande, (três vezes a mais do que eu gostaria), e senti que não dava mais. Pedi licença, fui até o banheiro (lembrando de fechar a porta dessa vez), sentei no chão bem dramática e comecei a chorar, pensando: "essa é minha vida, agora?". Quando voltei com os olhos inchados, ele pausou o filme, preocupado, e perguntou se eu estava bem (o ano era 2018 e as crises de ansiedade estavam aumentando, com justa razão, como podemos atestar). Contei o motivo do choro e ele ri disso até hoje.


Meu "casamento" tinha tudo pra não funcionar. Mas funciona. Pois mesmo que a gente só ache graça das mesmas coisas numa frequência média quinzenal, há momentos em que paro pra vê-lo gargalhando e sinto uma ternura da qual nunca me achei capaz. É doce. E existe uma inocência bonita em rir do pavê. Uma inocência da qual me sinto privada desde que me entendo por gente e que me faz ter vontade de protegê-lo da descrença humana. A piada do pavê sempre será novidade para alguma pessoinha na ceia de Natal; e preciso admitir que, mesmo desejando a morte do Bita em certas manhãs, gosto de acordar com o som do violão. Além disso, não dá pra sentir tanta raiva de uma pessoa que todas as noites checa se eu cobri bem os pés, porque sabe que eles ficam gelados, mesmo no verão. E não dá pra não amar alguém que depois de uma briga, sai pra dar uma volta, esquece o motivo da briga, volta com uma folha bonita que achou na rua - porque não encontrou nenhuma flor - e pede desculpa, mesmo o erro tendo sido meu.


Nosso primeiro ano de namoro - à distância - foi confuso e conturbado feito deve ser o inferno, mas eu não o trocaria por nada, considerando no que ia dar. As coisas foram melhorando com os anos, as escovas de dente, as brigas e tudo o mais. Não sei qual é o título certo pra gente, mas acima de tudo, somos amigos. Quando ele tem uma hipoglicemia no meio da noite, eu me levanto pra buscar suco. Quando tenho uma crise de ansiedade, ele segura minha mão e respira comigo sem fazer perguntas. Nos incentivamos no trabalho, passamos horas tentando escolher alguma coisa no catálogo da Netflix (pra no fim acabar caindo na mesma série de sempre), revezamos quem dá colo pra quem no sofá, eu cozinho e ele lava, temos brigas repetidas (em cada uma delas, "essa é a última vez que vou falar") e, apesar do negócio de polo-deserto, tomamos todas as nossas decisões juntos - mesmo que seja só pra escolher a sobremesa de Natal.


No fim, é o que importa. E é por isso que, mesmo constrangida e revirando os olhos, ano após ano respondo: é pacomê.

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