RECANTO DA PROSA

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  • Aline Caixeta Rodrigues

Essa tal escrita feminina



No dia 03 de março, a Fê Rodrigues e eu tivemos um bate-papo dos mais gostosos sobre a literatura escrita por mulheres – que aliás está disponível no canal do Recanto da Prosa com o título As mulheres da minha estante – e dentre as muitas coisas que discutimos, uma foi a questão da chamada "escrita feminina".


A expressão – que pra muita gente ainda está atrelada a uma escrita de qualidade inferior, sentimental e circunscrita a temas "menores" que dizem respeito ao lar e à vida privada – causa muita polêmica, tanto entre escritoras quanto entre pesquisadoras que têm se debruçado sobre a questão central do debate: existe, afinal, uma linguagem literária que seja feminina?


Se por um lado há autoras que negam o rótulo em função da defesa de que homens e mulheres têm iguais condições de produzir uma literatura de qualidade, e que não há formas ou temas que sejam específicos a um ou outro gênero; por outro, há quem diga que existe na literatura escrita por homens um reflexo de uma vivência e de um modo de se estar no mundo que não é o mesmo das mulheres. E mais: que a literatura produzida por elas parte de um outro lugar, de outras referências, e que mais do que "alternativa", é uma literatura "subversiva" que assume suas diferenças em relação ao status quo e questiona o modelo falocêntrico de produção artística.


Na graduação, fiz uma pesquisa sobre a obra de Marguerite Duras (uma dessas autoras que possuem uma literatura desviante da norma, à la Virginia Woolf, ou Clarice Lispector) durante a qual li um livro de uma pesquisadora que falava sobre a distinção entre as escritas feminina e masculina a partir do grau de racionalidade empregado em cada uma. Para a autora, a escrita masculina estaria para a razão como a feminina estaria para as sensações. E meu Deus, como essa pesquisa foi mal interpretada! "Então as mulheres são irracionais?", "Então mulher é sentimentalóide?", "Então somos todas histéricas?". Nada disso. O que a autora quis pontuar foi que o masculino é muito mais preso ao império da razão, enquanto o feminino se permite mergulhar profundamente no que há de mais complexo no ser humano, na bagunça que razão alguma é capaz de organizar, na intuição, na linguagem do corpo, na não-linguagem e no inconsciente. E veja bem: a autora não estava falando de homens e mulheres, mas de feminino e masculino enquanto categorias da mente. Tanto que citava muitos homens com um feminino potente, como Joyce, Rosa, Kafka e outros.


Daí que a minha pergunta é: será tão ruim assim dizer que o feminino escreve com mais sensação do que razão? Não será essa a grande potência da nossa escrita? Estamos todos condicionados, enquanto sociedade, a pensar que o que temos de melhor na espécie é o nosso intelecto. Mas será? Quantas pessoas brilhantes, mas mesquinhas e emocionalmente frágeis você já conheceu? E quantas outras, "menos inteligentes",¹ mas com extrema sensibilidade, intuições fortes e personalidades marcantes? O que vale mais? Se pudesse escolher se casar com alguém do primeiro ou do segundo grupo, quem você escolheria?

Na semana passada, estive revisando um material muito interessante sobre a sabedoria dos povos originários (baseado num evento chamado Cajubi), no qual, em determinado trecho, há uma transcrição de uma fala da autora Elisa Lucinda, na qual ela menciona o absurdo da separação que fazemos entre corpo e mente, apontando para o fato de que a gente não existe "só da cabeça pra cima":


"Ela é o corpo. Tudo dela é ela. Meu pé também é Elisa. Minha canela é Elisa. E minha avó também é minha canela. Eu não estou sozinha, eu sou um conjunto de 'interseres', da minha estirpe, de onde eu vim."²



E não é verdade? Cabeça e corpo – razão e sensibilidade – são mais interligados do que nos damos conta. Do contrário, não haveria tanta gente com gastrite nervosa e não ficaríamos mal humoradas quando o útero sangra.


Me parece justo dizer que ambos os lados possuem argumentos fortes: tanto quem nega, quanto quem afirma o título de "escrita feminina". O que sei, da minha experiência leitora, é que quando comecei a ler textos escritos por mulheres, descobri coisas sobre mim que não sabia. Senti um grau de identificação até então desconhecido. Me li representada, traduzida. E por isso tendo a acreditar que há, sim, uma singularidade nos textos escritos por mulheres que assumem, sem pudor, esse feminino. Um olhar diferenciado, vindo dessa minoria histórica e praticamente universal que é a mulher.


Existem hipóteses de que o machismo é o pai de todos os preconceitos. Que a ideia de uma parte da humanidade ser superior à outra tem por pedra fundadora a opressão do masculino sobre o feminino. Que esse preconceito deu as bases para a consolidação da ideia de hierarquização da espécie – e que depois essa ideia se expandiu para os preconceitos relativos às origens geográficas, cor da pele, orientação sexual, religiões, cultura e tudo o mais. Não tenho como provar, mas não duvido que seja verdade.


De minha parte, tenho gostado cada vez mais de ler e escrever com o meu feminino. Meu corpo, meus silêncios, minhas experiências e confusões, meus mitos, meu interior, meu eu-mulher. E concluo com as palavras de Lygia Fagundes Telles, retiradas do livro As meninas:


"Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos."




¹ Refiro-me aqui aos dois tipos de inteligência mais valorizados pela sociedade: a inteligência lógico-matemática e a linguística. Estudos mais recentes, no entanto, têm chamado a atenção para o fato de que existem múltiplas inteligências, menos reconhecidas, mas tão importantes quanto as duas primeiras: emocional, musical, espacial, espiritual, corporal etc.


² A autora refere-se, neste trecho, à liberdade de sensações explorada pelas crianças. O livro Cajubi está disponível gratuitamente para download aqui.

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