RECANTO DA PROSA

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  • Aline Caixeta Rodrigues

Isso é um abraço

Atualizado: Jan 13



Nunca fui muito de abraçar, só umas poucas pessoas e olhe lá, então não me cabe lamentar pelos abraços não dados no último ano. Soaria falso e abomino falsidade. Deixo essa saudade para quem a sente; eu cá, fico com as minhas: sair pra comer espetinho com batata-frita, o pôr-do-sol da praia de Boiçucanga, receber os amigos em casa para uma garrafa de vinho, passar a tarde numa livraria comparando os cheiros dos diferentes tipos de papel, a vida cultural de São Paulo, tossir sem medo, planejar itinerários de viagem, caminhar à toa na rua, sentir raiva do governo pelos motivos tradicionais, ficar feliz sem culpa... e por aí vai.


Não é que eu não goste dos abraços, apenas não penso muito neles. Ranço mesmo, só de abraço falso, mas daí até quem gosta do gesto deve odiar. Fazendo um balanço: não me incomodo, mas não tomo a iniciativa. Simples assim.


Ou pelo menos era simples assim. De um ano pra cá, todas as coisas tiveram suas proporções reajustadas, e os abraços não ficaram de fora. Conheço gente que sofre muito por não poder abraçar amigos e familiares. Outros que parecem, com sinceridade, não entender o risco. E gente que continua abraçando como afronta política, talvez até mais do que antes.


Eu evito. E vez ou outra sinto uma pontada de raiva dos abraços irresponsáveis. Penso nos amigos que sofrem por não poder abraçar e sinto raiva por eles. Penso nas pessoas que sofrem nos hospitais e sinto raiva por elas. Ocasionalmente, também tenho vontade de abraçar alguém - o que não faço. E há pessoas que deixo que me abracem, pois sei o quanto precisam disso.


Em resumo: abraçar virou um troço complicado. Observe duas pessoas que se encontram depois de algum tempo. No primeiro momento, ninguém sabe o que fazer. Dar um tchauzinho pra quem está a um metro de distância? Tentar uma reverência desajeitada, passando longe da elegância dos orientais? Fazer aquela bizarrice de cumprimentar com o cotovelo? Abraçar a si mesmo/a pra dizer que: (a) eu queria estar abraçando você; e (b) não me encoste? Complicado. Fico pensando se no mundo pós-vacina a gente vai reaprender a se abraçar naturalmente ou se, com o tempo, vamos pedir o divórcio entre o cumprimento verbal e os gestos do corpo.


Na semana passada, uma amiga me abraçou. Foi espontâneo, ela realmente gosta de abraçar, não nos víamos há muitos meses... mas imediatamente percebi que ela ficou constrangida. Minha amiga entende os riscos do contato, respeita a quarentena e sabe que, de minha parte, também tenho feito o que está ao meu alcance. Ela pediu desculpa, riu de nervoso, tentou explicar enquanto eu dizia que "não, tudo bem, foi bom, eu também estava com saudades". Mas sejamos sinceros. Não foi bom.


Da última vez que fiz um exame ortopédico no joelho, há uns três ou quatro anos, eu estava de chinelos. E quando o médico bateu com o martelinho e minha perna reagiu, o chinelo caiu no chão e nós dois começamos a rir. "Seus reflexos estão ótimos". Bom, eles ainda estão. O joelho, nem tanto, mas meu corpo continua reagindo bem a estímulos sensoriais. E assim que senti os braços da minha amiga, caiu a primeira das peças de dominó enfileiradas em minha cabeça.


Os braços reagem devolvendo o abraço, mas os ombros estão tensos. Abro o jornal. Não há mais leitos, 200 mil mortos, presidente tomando banho de mar, saudades do pôr-do-sol de Boiçucanga. O tronco faz um arco para reduzir a área de contato entre os nossos corpos. Meu namorado e eu fugindo da agitação de São Paulo pra tomar banho de mar em 2018, ansiedade por causa do período eleitoral. Ele tem uma hipoglicemia em Boiçucanga porque fizemos caminhada sem comer. Porção de espetinho com batata-frita pra glicose subir. O pescoço tenta levar o nariz para o mais longe possível, o shampoo da minha amiga tem cheiro de morango. "Os diabéticos são o maior grupo de risco abaixo dos 60 anos"; se eu pegar, ele pega. No jornal, o secretário de saúde de Manaus anuncia a abertura de mais 22 mil covas. Não está cabendo no hospital, não vai caber no cemitério.


Ela solta, eu solto. 2021. Isso é um abraço.

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