RECANTO DA PROSA

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  • Aline Caixeta Rodrigues

Nostalgia de domingo



Hoje de manhã vi um vendedor de balões de hélio. Saí bem cedo a caminho da farmácia, tentando evitar as pessoas, num domingo, que é quando há menos movimento na rua. Confesso que havia duas farmácias mais próximas de casa, e eu poderia dizer que escolhi a Drogaria do Nilson (aqui você pode confiar), com a única intenção de evitar as grandes redes e incentivar o comércio local – mas estaria sendo mentirosa. O que no fundo eu queria era apenas uma desculpa para caminhar.


O vendedor de balões também se levantou cedo. E foi se sentar no meio-fio, na porta da padaria. Ali na calçada, com seus balões coloridos e atrasado no tempo, ele me fez voltar para casa antes de chegar à farmácia. Não consegui continuar, tive uma crise de choro no meio da rua por aquela imagem tão doce quanto absurda. Por que alguém compraria balões em plena pandemia? O que havia para comemorar? E como aquele velho que já não conseguia ficar de pé na rua iria pagar as contas do mês? Com plástico colorido? Foram as cores que me fizeram chorar. Eram vivas e alegres, filtrando o sol nascente. E também delicadas, poderiam estourar a qualquer momento.


Mas ainda que sobrevivessem ao risco de explosão, se esvaziariam em um ou dois dias. No instante mesmo em que os balões são insuflados com o gás hélio, eles estão começando a se esvaziar. E essa inevitabilidade foi o que me desabou. Esse desfecho incontornável daquilo que é bonito e puro... Certa vez meu namorado me perguntou por que eu gostava de comprar flores no mercado se elas iriam morrer em poucos dias. Respondi que era por isso mesmo.


No entanto, os enfeites perdem importância em certas condições, quando a meta é sobreviver. Torna-se necessário ceder seu lugar para o que há de mais primitivo: comida, abrigo, manter a saúde. E quando todos estão contando os centavos, ninguém tem dinheiro para comprar aparentes frivolidades.


Mas ainda me lembro do desejo sempre que passava diante do quiosque de balões de hélio na entrada do shopping. Os balões de hélio eram mágicos. Flutuavam sozinhos e dependiam de nossas mãos firmes para não saírem voando. Por garantia, eu os amarrava no pulso, quase até cortar a circulação – mesmo que fosse divertido acompanhar com os olhos aqueles que queriam traçar rumos independentes pelo ar. Pensava que os balões deviam ter uma vista incrível lá de cima, olhando pras pessoas pequeninas e cada vez menores até que chegavam alto demais e estouravam sem ninguém para ouvir. Também pensava na surpresa de quem por acaso pudesse olhar distraído para o alto e topar com aquele inusitado – o que me parecia de algum modo extraordinário.


Naquela época, o espaço de festas infantis mais disputado da cidade se chamava Bala e Balão. Era caro fazer uma festa por lá, mas o lugar tinha quadra, karaokê, duas camas elásticas, escorregador inflável, parede de escalada e fliperamas liberados para jogar sem fichas. E havia o grande trunfo do salão: as mesas decoradas. O Bala e Balão era famoso pelas mesas mais elaboradas da cidade (que, para ser sincera, encantavam mais aos pais que às crianças), com seus bonecos gigantes de isopor, sacolas de lembrancinhas, bolos dignos de festas de casamento e, obviamente, uma enxurrada de balas e balões. Dezenas de balões. Não de hélio, mas daqueles dóceis que ficam no chão amarrados uns aos outros em colmeias compridas, e que eram dispostos ao redor da mesa num enquadramento de foto.


Depois dos parabéns fotografados com cada núcleo de membros da família, me doía quando o aniversariante liberava os balões para serem estourados. As crianças se tornavam subitamente selvagens, arrancando-os dos barbantes e das mãos umas das outras para pisá-los sem piedade. E eu não conseguia assistir à destruição. Procurava refúgio no banheiro assim que as palmas se acabavam, lamentando pelos balões que tinham colorido nossa festa, inocentes de seu destino violento. Tenho ouvidos sensíveis e, desde criança, carrego uma ansiedade implosiva e latente que também poderia estourar. Às vezes conseguia salvar um ou dois e os entregava para meus pais, pois tinha braços magrelos incapazes de protegê-los, mas sabia que as outras crianças não teriam coragem de tirá-los das mãos de um adulto. Meus sobreviventes eram levados para casa e amarrados à cabeceira da cama, onde podiam murchar em paz. Depois eu os guardava vazios numa caixa de sapatos debaixo da cama, junto da caixa grande de gibis e da pequena com os diários, etiquetada de “cadernos velhos” para despistar suspeitas inconvenientes e proteger minhas tristezas. Nos balões vazios, escrevia seus epitáfios com canetinhas permanentes: “Festa da Carol, Bala e Balão, 1998”.


Não sei se ainda existem crianças que cuidam de seus balões. Mas sei que na manhã de hoje a minha criança escondida se desesperou com a imagem do velho da padaria. E dessa vez fui eu que me vi atrasada no tempo. Só percebi tarde demais que não devia ter corrido para casa tão depressa. Não, ao menos, antes de ir até o vendedor e comprar cada um de seus balões para soltá-los no ar seco e duro – e hoje perigoso – do inverno, cruzando os dedos para que alguém os notasse.


Isso, é claro, depois de separar um ou dois pra levar pro meu quarto e amarrar na cabeceira, observando seus esvaziamentos para mais tarde guardá-los debaixo da cama: “Quarentena, em casa, 2020”.


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