RECANTO DA PROSA

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  • Aline Caixeta Rodrigues

Plantação de pragas




Faz pouco mais de um mês que estamos no apartamento novo e, apesar de tudo, me sinto em paz. Em novembro, quando pesquisamos opções pela internet, fiz uma planilha resumindo os candidatos a cinco. Esse foi o primeiro da lista; e assim que abrimos a porta de entrada para visitá-lo, eu soube. Meu namorado e eu nos olhamos e ele disse: "É esse, né?".


Cinco anos atrás, quando me mudei pra São Paulo, foi a mesma coisa. Escolhi um apartamento, entrei, decidi que era aquele, visitei mais sete, fechei contrato no primeiro. Dessa vez só olhamos mais dois e eu disse que bastava de perder tempo. Ignorar intuição é pedir pra fazer besteira.


A primeira coisa que notei foi a cozinha grande à esquerda. Ponto pro apartamento, gosto de cozinhar. O segundo ponto foram as poltronas floridas. Estavam encardidas, mas nada que uma boa limpeza não resolvesse. Gosto de coisas velhas, elas têm história; e gosto de consertar as que parecem destinadas ao lixo. Elas me fazem sentir que ainda tem jeito.


Mas o ponto definitivo foi a vista da sacada. Nada de parques, arranha-céus, colinas, lagos, nenhuma idílica paisagem mineira – até porque não temos dessas em minha cidade. A sacada do apartamento dá vista a um terreno vago, guardado por um portão enferrujado e muros remendados com madeirite. Um terreno inteiramente ocupado por braquiária e pés de mamona. Nada de tradicionalmente bonito, exceto por borboletas brancas, ninhos de corujas, ocasionais visitas de carcarás que vêm caçar os ratos, e muitos espécimes de uma planta da qual não sei o nome, com folhas largas em formato de estrela. Então por quê?


Só sei explicar por impressões. A braquiária faz barulho quando venta e tem um tom de verde que fica amarelo no sol. A terra cheira quando chove. As mamonas me lembram a violência inocente das batalhas de infância; e as folhas estreladas possuem galhos maleáveis que, há uns vinte anos, serviam de fios com os quais eu trançava colares ásperos que não arrebentavam por nada.


Coloquei minha mesa de trabalho ao lado da sacada; mantenho as cortinas abertas e a cada pausa olho pro mato. Ele resiste, tenho orgulho dele, chamo de meu. Há duas semanas, um senhor veio capiná-lo – e depois queimou tudo. Precisei fechar o apartamento por três dias por causa da fuligem, da poeira, dos mosquitos e baratas desterradas. Tenho certeza de que as tardes ficaram mais quentes. Naquele dia, passei o tempo todo olhando pra fora, silenciosa e triste, vendo meu mato em destruição. Achei que ficaria sem ele por algum tempo. Mas tem chovido. Tempestades. E praga nunca morre de verdade.


Meu mato se ri de quem tenta destruí-lo, já está verde e alto novamente. Minha mãe diz que ele é perigoso, que serve de morada a ratos e cobras. (Ninguém parece perceber que o perigo é tirar os ratos e cobras de onde não estão ao nosso alcance). Ela também diz que ladrões podem se esconder ali para entrar no prédio. Só não sei por que alguém faria isso se os muros vizinhos, ridiculamente altos, são cercados por câmeras, alarme, cerca elétrica e rolos de arame farpado, daqueles de presídio. Além disso, meu mato se vira: a braquiária corta, mamona espeta e a folha-estrela coça até doer.


Às vezes sinto que gosto das coisas erradas, velhas, quebradas, de plantas traiçoeiras, ratos e cobras. Claro que também faço escolhas certas: a cozinha grande, o apartamento seguro e a mobília confortável. Só me desvio da linha de vez em quando, sou bipolar e prefiro caminhos curvos. Já colhi mudas de pragas na rua, acho bonitas as flores que crescem no cimento. Elas não exigem cuidados, adubo, nem água diária; só precisam mesmo de sol. Brinco que ainda vou ter uma plantação de pragas na sacada – e não é de todo brincadeira.


Mas o mais bonito, e que inspira afeto em meio à pandemia, é a resiliência das pragas. Elas sabem como renascer, se proteger, servir de morada e ainda fazer brotar flores delicadas. Praga só é praga porque alguém quis assim. Entortando um pouco o olhar, mato é planta como qualquer outra. E é planta forte.

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