RECANTO DA PROSA

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A diferença entre compromissos e obrigações

Atualizado: Ago 9



Conforme o previsto, domingo é dia de fazer uma retrospectiva da semana para avaliar como tem sido participar do desafio BEDA. E é exatamente sobre essas coisas previstas que eu queria falar. Segundo a minha programação, na última sexta-feira eu deveria ter feito um post para o quadro Como Fazer, respondendo dúvidas de escrita; e ontem era o dia de ter postado uma breve cena narrativa para o desafio Cena Surpresa.


Só que não deu. E por mais que no primeiro dia de agosto eu tenha dito a mim mesma que nada iria acontecer se eu não conseguisse fazer posts todos os dias, aconteceu uma coisa: eu fiquei frustrada. Esperado, claro. Ninguém faz um compromisso de 31 dias esperando que ele comece a falhar logo no sexto. "Ah, mas foi um dia só, tá tudo certo". Verdade, só que no dia seguinte também não consegui. E depois de dois dias seguidos, acho que a maior parte das pessoas começa a se fazer a pergunta: "Será que vale a pena retomar?" Porque sim, eu me fiz essa pergunta ontem à noite. E nessas horas brotam um milhão de vozinhas enjoadas na cabeça: "Não tem quase ninguém acompanhando mesmo"; "Ninguém vai sentir falta"; "O post nem era tão bom assim"; "Você está perdendo o seu tempo" e por aí vai. Por isso é tão difícil criar um hábito. Porque quando começamos a falhar, a tendência a chutar o balde é enorme.


Mas vejam bem, vozinhas enjoadas, eu tenho um plano. E o construí de uma forma maleável que me permite voltar aos trilhos na hora que eu bem entender. Porque voltar ou não é uma escolha minha, assim como deixar a frustração tomar conta. Foi chato perder dois dias seguidos? Foi. Eu queria poder chegar ao fim de agosto e dizer que consegui postar 31 textos em um mês? Sem dúvida. Bateu vergonha de pensar que escorreguei logo na primeira semana? Muita. Fiz projeções irracionais de fracasso do tipo "se nem isso eu consigo fazer, não vou conseguir fazer nada na vida"? Sempre.


Só que aí pensei em Simone Biles, a ginasta que depois de desistir de cinco finais olímpicas para cuidar da saúde mental, recebeu milhões de mensagens lhe dando os parabéns pela escolha. Que fique MUITO claro, não estou me comparando a ela! Não tenho um décimo da disciplina necessária a uma atleta olímpica, não tenho sua força, coragem, nem espero mensagens de apoio - e tá tudo certo, porque tenho outras coisas bem legais - mas o que me pegou foi a seguinte constatação: se essa garota, que aos 24 anos já tem 25 medalhas em campeonatos mundiais (sendo 19 de ouro!), que já entrou nas Olímpiadas sendo a favorita em todas as modalidades da ginástica artística e que já esteve na lista das 100 mulheres mais inspiradoras do mundo, pela BBC, teve a coragem de dizer: então, galera, eu sei que muita gente investiu muito dinheiro em mim, que o país inteiro está torcendo pra que eu leve uma meia dúzia de medalhas pra casa, que centenas de milhares de atletas se inspiram no que eu faço para investir em seus sonhos, que o meu corpo está no auge da forma física depois de uma vida dedicada a treinos diários para chegar a este momento e que vai brotar gente do buraco do chão do asfalto pra me chamar de fresca... só que hoje não vai dar. (Não foram essas palavras, claro. Essa sou eu transcrevendo o que imagino da cabeça de Simone Biles).


Pensa no tamanho disso, minha gente! Daí que eu te pergunto: quem são meus posts perdidos na fila do pão!? Todos, todos nós temos o direito de cuidar da saúde mental, quaisquer que sejam as circunstâncias. E eu precisei tirar esses dois dias pra cuidar da minha (nada grave, coisas do dia a dia mesmo). Fiz umas sessões extras de terapia, matei aula, dormi até as nove da manhã, assisti a um filme com a minha mãe, larguei a louça na pia e pedi uma pizza. Fazer compromissos é bom. Fazer compromissos é importante. Mas não quero viver sob a ditadura da obrigação e do alto rendimento. À merda com a ideia de que "os limites só existem pra quem pensa pequeno"! Todo mundo tem limites, e respeitá-los é um ato de amor, coragem e inteligência. Se eu tivesse me obrigado a escrever esses dois textos, eu teria conseguido, sem dúvida - já fiz coisas muito mais difíceis em circunstâncias muito mais complexas - mas a questão é a seguinte: todos temos as mesmas 24 horas por dia e os mesmos 7 dias na semana, o que significa que para encaixar qualquer coisa é inevitável sacrificar outra. E eu poderia ter sacrificado qualquer uma das que mencionei (terapia, sono, lazer), mas se tem outro clichê que vale a pena ter em mente é que cada escolha tem suas consequências. E as consequências de se sacrificar a saúde mental são quase sempre desastrosas.


Então é isso. O post de sexta-feira volta pro banco de ideias e fica para outra ocasião. O desafio da Cena Surpresa, pro sábado que vem. E como ando vendo muitos placares nos últimos dias, considero que a prova do BEDA está no 5 x 2, saldo positivo. Além disso, amanhã é segunda-feira, o dia mundial de começar de novo, então fechou.


(Ah. E para quem não andou acompanhando as Olimpíadas, saibam que Biles voltou no último dia para o individual de trave, depois da pausa que fez para se cuidar, e ainda levou o bronze, ovacionada de pé - medalha que segundo ela "valeu mais do que todos os ouros".)



P.s.: Feliz dia dos pais a todes que foram e seguem presentes na vida dos seus filhos e filhas, com responsabilidade, carinho, respeito e, acima de tudo, amor.

(Ao resto: melhorem).

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